Administrando a vitória e a derrota

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O Karatê-Dô e a administração das emoções diante da derrota e da vitória

Oss!

11.16.03O estudo do Karate-Do nos trás uma busca introspectiva muito mais ampla do que o aspecto esportivo. Por mais propaganda que façam do esporte em si e os benefícios que o mesmo possa nos trazer, as artes marciais que não são em si necessariamente esportes, mas sim práticas internas e externas que lidam também com o corpo como instrumento a serviço da mente para um crescimento humano, nos trás verdadeiros combates internos que muito mais longe vão do que os combates que podemos observar  na defesa pessoal.

Já falei antes em outros textos a respeito de não haver derrota no Karate-Do, mas devo dizer aos caros amigos leitores que para se chegar verdadeiramente a essa conclusão e não da boca para fora, deve se entender o que estamos estudando. Nos dias atuais apoia-se a ideia da competitividade como se fosse algo saudável, e eu ao meu ver, entendo a competição entre os seres humanos  como um reflexo de sua inferioridade moral, pois ninguém é melhor que ninguém e como sempre digo, a vida é feita de momentos e eles passam e tudo muda.

Quem perdeu ganha, quem ganhou perde, quem não entende hoje entenderá amanhã e assim a vida segue.

Hoje a competitividade americana tomou conta do mundo e vemos ele bem mais competitivo do que já era e as pessoas vendo esse aspecto como normal sendo parte de uma característica humana a qual não mais deve ser combatida, mas sim incentivada e ensinada às crianças.

Alisa Buchinger is targeting a medal at Baku 2015 ©Getty Images

Será mesmo que é esse o caminho ideal? Não creio que deva ser assim, pois a maioria dos seres humanos não sabe verdadeiramente seguir a rigor os ensinamentos que trazem um valor maior por trás de grandes caminhos e ensinamentos filosóficos e sendo assim,  buscam um mundo de mentira com pessoas superficiais que buscam ou dizem que buscam algo de valor, quando em realidade elas querem para si verdades as quais sejam confortáveis aos seus egos.

Se como já ouvi muitas vezes, os valores mudam de pessoa para pessoa, vejo que temos um panorama infernal diante dos nossos olhos.

Se estudamos os velhos caminhos marciais e não chegamos a conclusões profundas diante das questões da vida que nos deparamos em sociedade atualmente e não trazemos soluções e orientações para aqueles que não estudam o que estudamos e por isso mesmo esses não tem tal visão mais abrangente, então só estamos adestrando nossos corpos para nos agredirmos mutuamente como gladiadores na arena da vida para defender  o nosso ponto de vista de acordo com nossos valores que variam de pessoa para pessoa.

87835648017Para esses que só enxergam o aqui e agora e acham mesmo que os valores são variados e não há o certo e nem o errado de maneira que não haja algo imutável, esses pensam de fato que quando se perde na vida, no Dojo, tatame etc. realmente se perde e daquilo, ou seja, daquela derrota nada se aproveita. De fato deve ser extremamente triste viver com essa concepção das coisas. Penso que perder é e sempre será duro diante das competições da vida, mas ganhar pode ser bem pior.

Talvez os velhos mestres de Okinawa estivessem certos em não apoiarem o Karate como esporte, não só pelo fato do Karate ser uma arte marcial, mas sim por todo esse processo de estudo e auto conhecimento que ocorre na caminhada do estudante de Karate quando ele leva a arte para vida dele e não apenas como um modo de competir com outros estudantes do mesmo caminho. Neste modo moderno de ver as coisas aceitando a competição ou seja, o competidor que aceitando  as derrotas e vitórias como parte de um processo de crescimento na arte, esses verdadeiramente crescem dentro desde modo de pensar sem necessariamente não amadurecerem o lado marcial.

Com isso quero dizer que o esportista cresce marcialmente ou tem sim tal possibilidade, mas nem todos crescem e amadurecem dentro desta forma. Mas devo dizer que a maioria fica excelente em marcar pontos e acertar dentro dos moldes os quais eu mesmo não sou bom e muitos dos veteranos desta arte marcial também não. Sendo assim torna-se um caminho perigoso o do esporte.

Se existe algo de extremamente positivo para o competidor que por vezes pode sim acontecer dele ter melhor do que aquele que só treina para si dentro do seu Dojo e com amigos os quais vai conhecendo durante a vida, é a administração interna das suas emoções por ter mais experiência de estar sempre lutando com pessoas diferentes, idades e pesos diferentes e o ponto principal, ou seja, estar sempre lutando com esses na frente de multidões de estranhos. Isso trás um fator bem enriquecedor para o atleta de Karate, mas que se o lutador de Karate-Do trás uma boa administração interna destes aspectos, tudo se equivale entre esses dois tipos de praticantes de Karate-Do.

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Gostaria de deixar claro aos leitores que não sou contra o Karate-Do também em competições, mas percebo o perigo do distanciamento que há nessa jornada de divulgação e propagação da nossa arte marcial, pois eu mesmo com tão pouco tempo de prática na arte se comparado a milhares de profissionais e veteranos do Karate-Do, percebo a diferença. O Karate-Do  sofreu o processo de adaptação com o tempo ao lado esportivo devido a sua periculosidade em luta, mas ao mesmo tempo em que nasceu todo esse cuidado que converteu nossa arte marcial em apenas um esporte para alguns, nascia anos depois, o MMA como reflexo do Vale Tudo com toda brutalidade possível fazendo assim o Karate-Do ser mamão com açúcar se comparado ao que nascia.

Diante disso eu vos pergunto, qual é o sentido de uma arte marcial tão feroz e completa como o Karate-Do ser reduzido a um esporte cheio de regras  e nesta mesma sociedade atual onde acontece isso com o Karate-Do, quando as pessoas querem buscar uma arte marcial forte e completa, elas buscam aulas de MMA por verem o Karate-Do como uma arte fraca ou apenas um esporte? De fato é só neste ponto que vejo o aspecto esportivo prejudicar nossa arte marcial. Há realmente hoje quem respeite o Karate-Do novamente, mas ainda há uma visão equivocada dele em função da divulgação esportiva.

Quando estudamos nossa arte marcial com este sentido, temos a oportunidade de nos depararmos com esses pontos os quais coloquei aqui, ou seja, diante do crescimento do guerreiro, ele luta, perde, vence, vence novamente, perde outra vez até que chega o momento em que está verdadeiramente pronto para vencer na hora que realmente precisará. E todo esse processo se intensifica obrigatoriamente a partir da faixa preta onde o lutador de Karate-Do deve treinar diariamente e se enfrentar com o mesmo rigor e constância.

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Disso  nasce o amadurecimento das questões provindas do estado emocional que nos aturde diante de derrotas e vitórias. Muito se engana aquele que acha que só a derrota pode nos prejudicar! Muito pelo contrário! A derrota nos faz crescer quando verdadeiramente admitida e absorvida pelo estudante de Karate-Do seja qual for o nível dele. Estar diante de uma derrota, nos trás um tipo de transtorno emocional o qual nos faz sentir como fracos, ineficientes ou mesmo acharmos que perdemos tempo de vida treinando e estudando aquela arte marcial que praticamos, uma vez que falhamos quando perdemos de alguém.

Mas isso tudo bem meditado, se reverte a uma auto superação incrível!

Já a vitória nos trás uma massagem no nosso ego que pode ser de extrema periculosidade para o lutador de Karate-Do, pois pode trazer um conforto a este que o amolece diante de adversários mais duros futuros que podem por ventura aparecer diante deste vitorioso e o surpreender. Hoje vejo a vitória como muito mais perigosa do que a derrota, pois a derrota nos fortalece quando compreendida e crescemos em cima dela, já a vitória nos ilude e nos faz crer sermos infalíveis!

Tatsuya Naka 中 達也 Shotokan Karate 7th Dan, Kumite Champion

Tatsuya Naka 中 達也 Shotokan Karate 7th Dan, Kumite Champion

E é por isso mesmo que o Karate-Do marcial não nos permite vaidade e excesso de autoconfiança. Esta arte nos mostra que essas duas características são cruciais e muito perigosas para a estabilidade do guerreiro. Nascer pobre é ter de viver sobre  um panorama o qual o rico jamais saberá como é. Por outro lado nascer rico embora possa acontecer dele conhecer um panorama e ótica da vida a qual muitos pobres não conhecerão, este por dificilmente perder sua fortuna, não saberá conduzir sua vida com a mesma sabedoria que alguns que foram pobres e aprenderam com as dificuldades, saberão.

É claro que isso não é uma regra geral e lamentavelmente a maioria dos exemplos de pobres que enriquecem que vemos, não usam bem o que ganharam e torram sua recém  fortuna adquirida e voltam a pobreza! Mas se formos compararmos, aquele que conheceu como é estar embaixo e aproveitou com sabedoria a aprendizagem, observaremos que este sabe com mais propriedade o valor do dinheiro e o usa com mais sabedoria sua riqueza.

O mesmo se aplica com a experiência daquele que já perdeu uma ou mais vezes uma luta ou algo na vida em geral e deu a volta por cima, pois soube se moldar melhor para alcançar o verdadeiro sucesso forjado em suor e muita administração interna. Aquele que só venceu, por vezes quando cai, este cai de uma vez só e já não mais se levanta e abandona o caminho.

Abominar a derrota vendo a mesma como um destino reservado apenas para os fracos é a maior derrota que alguém pode sofrer! Ainda que este vitorioso nunca tenha de fato perdido e se aposentado invicto, acredite que este terá algo de menos em sua essência para ensinar, pois o mundo é composto de vitórias e derrotas e devemos saber nos levantarmos e ensinar aos outros se levantarem.

A vida não é um conto de um Samurai infalível ou mesmo um filme de ação onde o herói jamais é atingido e cai. A vida é feita de pessoas humanas e este condicionamento que há desde a infância dos seres humanos em busca de valores expostos pela mídia que na maioria das vezes é vazio de verdadeiros valores, de fato como diz o budista e esotérico Otávio Leal, constrói pessoas de plástico, múmias etc. que por sua vez fogem do verdadeiro foco da vida que é a busca da iluminação interior, pois para muitos desses, isso é coisa irreal e para aqueles que ao menos ainda admitem ser real, só existe nos mosteiros budistas.

Escrevo para seres pensantes e não para aqueles que acham que as artes marciais e especificamente o Karate-Do, traz uma superioridade perante as outras pessoas comuns que não estudam nenhuma arte marcial ou uma superioridade perante aqueles que estudam outras artes marciais. No livro Karate-Do o meu modo de vida do Shihan Gichin Funakoshi, ele diz que aqueles que aplicavam por exemplo técnicas de quebramento(de tijolos, gelo etc.) não necessariamente entendiam de Karate-Do ou praticavam esta arte. Ele dizia também que não é porque alguém sabe quebrar objetos que conhece verdadeiramente a essência do Karate-Do.

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O mesmo se aplica ao tema atual desta semana, ou seja, praticar Karate-Do não garante tais reflexões e amadurecimento no processo de aprendizagem da arte, pois tudo depende de como está estudando e quais os valores seu Sensei está lhe passando.

Quantos lutadores de Ju Jutsu brasileiro vimos arrebentarem aqui e ali pessoas nas ruas na década de 90 com a empolgação das vitórias de profissionais dessa arte no Vale Tudo, mas em essência, estes vândalos nada sabiam da essência do Ju Jutsu que aprenderam. E tudo em função dos caminhos que trilharam errado e má orientação dos seus professores.

Então procure estudar o Karate-Do buscando a essência desta arte marcial para que você cresça verdadeiramente e a arte em si sobreviva. Tal aproveitamento do Karate-Do na vida de uma pessoa, só acontece quando há um crescimento interno que permite uma administração interna das emoções de modo que possibilite ao estudante deste caminho vencer a si mesmo e se superar para ser verdadeiramente feliz e não uma pessoa de plástico.

Uma boa semana para todos!

Oss!

Sensei Allan Franklin

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Sobre o Autor

Sensei Allan Franklin Pinheiro

Aluno do Bukaikan do Shiran Kung, discípulo direito e primeiro aluno do Shiran Kyoshi Benedito "Mão de Ferro" do Rio de Janeiro. Pratica neste Dojo os estilos Shotokan Ryu e Goju Ryu, tendo como intuito, resgatar a alma do velho Karatê de Okinawa.

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