Arbitragem, por André Galvão

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André Galvão, um grande praticante da arte suave e lutardor de MMA, recentemente postou em seu facebook alguns comentários sobre a arbitragem em competições de Jiu-Jitsu; vamos ver o que ele disse?

Andre Galvao

“Fala galera, tudo bem? Gostaria aqui de expor a minha opinião sobre as regras da IBJJF, que eh a principal federação do nosso esporte.

Meu primeiro campeonato Mundial de Jiu-jitsu pela IBJJF foi em 2001 na faixa azul. Desde então eu sempre competi os eventos da IBJJF, hoje também sou professor e tenho alunos competindo sempre. Estou por dentro do esporte todos estes anos. Gostaria de parabenizar a IBJJF pelo grande evento, pelo crescimento dos campeonatos no geral, eu vi tudo isso sendo transformado, parabenizar também ao horário, etc. etc. Foi um excelente evento. Antes de tudo gostaria de dar os meus parabéns a todos que trabalham no evento. Show!

Agora partindo ao assunto. Já vi muitas mudanças na regra de nosso esporte. A regra no jiu-jitsu esta cada dia mais complexa. Os gestos com os braços aumentaram, e muita coisa. O placar está bem tranquilo de entender, mas a regra ainda não esta aonde propriamente deveria estar.

Nosso esporte evolui a cada dia, o jiu-jitsu eh uma arte marcial linda. Não tem fim, a única coisa que pode por um fim nas posições e evolução do nosso esporte são as regras.

Eu quero dizer aqui que respeito a todos os árbitros e todos que fazem parte da comissão de arbitragem da IBJJF. Mas o que eu acho eh que muita coisa poderia ser mais bem revisada. Claro que não podemos mudar as regras do jiu-jitsu radicalmente, eu entendo isso, mas acho que existem coisas que podem sim ser analisadas e revisadas. Acho que a regra atrapalha por muitas vezes, a forma do arbitro interpretar certas situações de luta. Eh muito delicado tudo isso. Os árbitros estão ali sempre muito bem intencionados exercendo o trabalho deles. O resultado de uma luta, por muitas vezes, não eh má intenção de um arbitro e sim culpa da regra.

DESCLASSIFICAÇÃO:

Hoje vejo atletas sendo desclassificados a rodo. Existem certas coisas que não precisam ser radicais. Vejo os atletas serem desclassificados por amarração, isso eh outro caso, eu concordo com isso. Se você não quer lutar, você nem precisaria estar em um campeonato lutando, não quer lutar tem que ir pra casa mais cedo. Eu concordo com isso.

TORÇÃO DO JOELHO:

Eu acho que nesta parte a federação esta pecando um pouco, esta pegando muito pesado. Muitas e muitas vezes a torção de joelho eh causada por acidente, nervosismo, falta de atenção, ou pode ser usada intencionalmente pelos dois atletas, tanto quem esta atacando quanto quem esta defendendo. Depende muito. Posso dar aqui o exemplo da luta de Cornelius, quando o atleta da BTT fez um movimento intencionalmente para prejudicar o meu aluno. Se vcs olharem o vídeo, isso eh claro. Eu respeito o Gamonal e não acho que ele esta errado, ele usou a regra, mas acho que neste caso deveria ser somente uma punição grave, e recomeço de luta sem a torção de joelho. Se o Atleta que esta fazendo guarda fazer novamente o juiz puni novamente ate chegar a punição de Desclassificação. Acho que o atleta não poderia ser desclassificado sem ao menos ter a oportunidade de um novo recomeço. O jiu-jitsu como disse eh muito complexo, e hoje em dia a guarda esta cada vez mais complexa, nasceram muitos ataques de guarda nos últimos 4-5 anos, muitos tipos de guarda, o jiu-jitsu eh praticamente um atleta passando guarda e o outro fazendo guarda, na maioria das lutas, o uso das pernas eh inevitável. Quando ha a desclassificação por causa disso, sem o atleta ter uma nova chance, eh muito triste. Vc vê o esforço de um atleta indo água abaixo em fração de segundos.

Outro exemplo seria a luta do Guto Campos contra Rômulo Barral, acho que quem viu esta luta pode analisar e ver que quem estava forcando o joelho era o atleta que estava por cima, no caso Barral. A perna do Guto não estava atravessada sobre o quadril do “Rominho”, e sim a perna estava no nível da canela, Guto estava somente segurando a calca e, o Barral tentando virar para o lado contrário, neste caso acho que o Juiz deveria perceber que quem estava torcendo o próprio joelho, era o atleta que estava passando. Se realmente o arbitro achasse que estava havendo uma torção de joelho da parte de Guto Campos, ele poderia parar a luta do jeito que estava, chamar a atenção do Guto lhe dando uma punição e logo apos recomeçar. Acho que isso seria o mais justo, pois em um recomeço poderia ser melhor analisado quem realmente estava torcendo a perna. Quero dizer aqui que respeito muito o atleta Rômulo Barral, um grande campeão, mas estou usando este exemplo porque eu vi esta luta, eu estava lá na hora, nada contra Rômulo, que fez uma grande competição. Quero somente a melhora de nosso esporte.

Esta parte de Desclassificação automática, eu acho, na minha opinião, muito radical e na maioria das vezes, 97% das vezes que eu vejo, muito injusto. Não concordo!

PUXADA PRA GUARDA DUPLA:

Acho perfeito ter 20 segundos de ação, com alguém subindo ou tentando atacar as costas na puxada de guarda dupla, todos vimos um ótimo resultado nesta área. Vi atletas “guardeiros” lutando por cima, tentando passar a guarda. Isso foi um passo muito bom dentro da regra neste ultimo mundial. E também forca os atletas a evoluírem a passagem de guarda dessas guardas loucas de hoje 
AMARRAÇÃO NA GUARDA ABERTA: A amarração de guarda aberta eu também acho que foi um grande passo, mas ouve controvérsias em lutas em que o atleta estava vencendo e ai depois começava a amarrar de guarda aberta. Eh possível amarrar de guarda aberta? Sim!!!

Como? Se você tiver boas pegadas na manga ou calca e conseguir neutralizar o adversário por cima, eh possível amarrar sim. Exemplo: lacar os dois braços fazendo guarda, segurando nas mangas, SERIA UM GRANDE EXEMPLO. Eu não conheço nenhuma raspagem ali naquela posição e também acho muito difícil você buscar a finalização nesta situação. Lacando somente um braço sim, mas os dois seria muito difícil. Então acho que deve sim haver punição na guarda aberta amarrada, concordo com a IBJJF.

RECOMEÇO:

Sobre a parte de recomeço de luta, acho que isso poderia ser melhorado. Talvez o arbitro poderia tirar uma foto da posição de alguma forma, talvez usando o celular pra poder recomeçar a luta. Não iria ter como voltar em outra posição. isso seria uma sugestão. Pois existem vezes em que o arbitro não fica ligado em certas pegadas, que fazem muita diferença na hora do recomeço. Acho que isso seria bom a todos e seria o mais justo. Pois o jiu-jitsu eh uma arte muito complexa, e a diferença de uma pegada, muda completamente uma situação de luta.

O recomeço de uma luta que estava no chão ser voltada em pé, pode custar um titulo mundial. Isso deveria ser analisado melhor, pois fazemos uma luta que não tem fim, o jiu-jitsu eh uma luta que deve somente acabar quando o tempo acaba ou quando alguém desiste. Isso no jiu-jitsu de competição. Exemplo: da área de proteção para a área de combate, o arbitro para uma luta que por muitas vezes a posição começa dentro e cai pra fora, na maioria das vezes, ou quando o juiz quer, ele volta a luta em pé, acho que isso tira, totalmente, o objetivo principal da luta que eh a finalização. E ai depois pessoas falam que os atletas lutam pensando em pontos etc. etc., mas acho que isso eh um pouco de culpa da regra.

Um exemplo foi a minha final contra o Pena, onde logo no inicio trocamos quedas e ele me deu uma queda caindo quase que no meu cem quilos. O juiz mandou voltar em pé, mas o movimento foi iniciado de dentro para fora, acho que nesta situação poderia votar a luta no chão na mesma posição que caímos. Outro exemplo foi a raspagem de Rafael Mendes em Cobrinha quando o Rafa caiu por cima montado no Grande Campeão Rubens “Cobrinha”, foi um movimento de dentro pra fora. Acho que ali os dois ainda estavam lutando assim como eu e o Felipe Pena. O que eu estou dizendo aqui não eh para proteger ninguém e sim para o beneficio de nosso esporte. Estou falando com todo respeito e sinceridade.

Acho que se querem ver mais ação e finalização, o arbitro nesta situação poderia dizer: PAROU!!! Bater uma foto e voltar ao meio conforme a foto. Acho que seria melhor para a luta e aos atletas que buscam a luta. Existiriam muito mais finalizações em um campeonato, ou mais ação.

COMEMORAÇÃO:

Acho que o Atleta deve ter o direito de comemorar, claro que sempre respeitando o adversário. Acho que sair correndo pular na torcida etc. etc. claro que poderia atrapalhar com o horário das lutas e a agenda do evento, mas o atleta poderia ter a chance de ter o direito de comemorar por ate 20-30 segundos depois de vencer a luta, principalmente a final. Porque não, em todo esporte existe a vibração, existe a comemoração de um campeão. Nosso esporte perdeu um pouco isso. Quem sente mais isso eh o atleta que esta lutando. Falo isso porque eu luto e sei como eh legal fazer isso  Mas se não quiserem mudar esta parte tá tranquilo. Isso eh o de menos! Punição por comemoração eh ridículo, o que ouve com o Ary Farias ano passado foi uma coisa que nunca aconteceu e nunca acontecera em nenhuma modalidade esportiva, principalmente dentro do munda da luta em geral. Seria como tirar o titulo mundial de um lutador que acabou de vencer o cinturão mundial do UFC por ter subido na grade pra comemorar. Isso não faz sentido! Sei que o arbitro usou a regra, mas essa parte da regra foi demais! Indiscutível…

PEGADA ILEGAL:

Concordo com as pegadas de boca de calca, boca de manga etc. claro isso faz sentido. Botar o pé dentro da faixa também acho certo, não deixar existir isso.

50/50:

Acho que a 50/50 já evoluiu muito, hoje em dia você pode ver pessoas saindo dessa situação com mais êxito do que antes. Acho que se os dois atletas estiverem parados ai sim deveria haver um recomeço. Claro que dando punição aos atletas. Mas uma coisa que eu sugiro seria punir o atleta que buscou a 50/50 (normalmente quem esta embaixo) o arbitro deveria apontar pra quem colocou na guarda abrindo a contagem de 20 segundos de ação. Deveria haver isso, pois ai forcaria o atleta de baixo buscar a luta ou desamarrar a posição a hora que ele quisesse. Acho que ajudaria muito a regra.

TEMPO MÁXIMO DE AMARRAÇÃO:

Seriam 50 segundos totais (30 regressivo e mais 20 progressivos) Acho que deveria existir um relógio na mesa de pontuação para cada atleta. Este relógio teria contagem regressiva de 30 segundos. Isso deveria ser o tempo máximo que um atleta poderia amarrar uma luta, antes de tomar a primeira punição. Ele poderia usar esse tempo durante a luta. Seria somente 30 segundos no total. Exemplo: O atleta passou a guarda. Passaram-se 15 segundos e ele não fez nada. O juiz deveria abrir contagem neste relógio acumulativo dizendo: LUTE AZUL (No caso o atleta esta de kimono azul). Suponha que o relógio abriu contagem regressiva, e o atleta amarrou por 16 segundos, e ai depois começou a se movimentar.

Assim que ele começa a se movimentar este relógio pararia com o Juiz dando sinal a mesa, ou ate mesmo o arbitro poderia ter um controle na mão dele para parar e começar este relógio a hora que ele quisesse. O atleta sabe que ele tem somente mais 14 segundos para ficar parado em uma outra situação qualquer. Vamos dizer que ele foi em algum momento da luta e fechou a guarda e não quis se mexer. Passou-se 15 segundos e ele não mexeu em nada. O juiz diria: LUTE AZUL e abriria o restante deste cronometro que estaria no caso com 14 segundos mais para o atleta usar para segurar a luta. Acho que com isso o Atleta saberia que ele não poderia ficar parado por tantas vezes e ele também teria a noção de como lidar com a situação. Acho que a luta ficaria mais dinâmica. 

Pois o que eu vejo hoje eh o relógio de ponteiro no pulso do juiz. Tem relógio de arbitro que passa rápido, mas tem relógio de outros árbitros que o ponteiro anda mais devagar. Nenhum arbitro usa ROLEX. hahahaha! Acho que isso seria muito mais eficiente e daria ao juiz uma posição de “ser justo” O arbitro começaria a dar os pontos negativos apos o esgotamento deste tempo. se o atleta esgotasse o tempo limite de 30 segundos regressivos, ele tomaria a primeira punição por amarração, e apos o termino do tempo regressivo, a contagem passaria a ser progressiva no relógio, mostrando ao arbitro o tempo a mais que o atleta estaria amarrando. Neste caso exemplo: Eu esgotei meu tempo de 30 seg. e ai tomei minha primeira punição e ai eu continuei amarrando, a contagem continua sendo progressiva e ai vai 0,1,2,3,4…10 seg. amarrando eu tomaria outra punição, e ai continuei amarrando, e o relógio …11,12,13,14 ai eu comecei a me mexer, o relógio parou nos 14 segundos.

Mas o juiz e o atleta sabe que se ele amarrar ate os 20 segundos ou seja mais 6 segundos neste caso, ele seria desclassificado, pois tomaria 3 punições por amarração. a primeira com o termino dos primeiros 30 seg. regressivos (punição e vantagem pro adversário), a segunda por mais 10 segundos (Punição e 2 pontos pro adversário) e a quarta por mais 10 segundos. Punição e desclassificação por amarração, a punição seria automática. Mas sempre com o arbitro de alguma forma avisando o lutador que ele esta sendo punido. Não existe você punir alguém sem a pessoa saber, seria como eu ir pra prisão/cadeia sem saber o por que o meu crime. O arbitro hoje em dia grita LUTE sem a gente saber quem esta sendo o causador da amarração. Acho que o atleta deveria saber que ele esta sendo punido, pois assim ele se apressaria em querer buscar a luta novamente, dando mais movimentação ao combate.

Acho que isso seria o mais justo, pois hoje o atleta sempre que esta amarrando não tem a noção da quantidade de tempo que ele esta amarrando. Ele sempre acha que não estava amarrando por muito tempo e ai o arbitro acaba sendo prejudicado pois na maioria das vezes as pessoas acham que o arbitro agiu de má fé, mas com este cronometro na mesa, claro que exposto e visível a todos assim como eh o placar, seria uma forma eficaz e eficiente para o arbitro somente mostrar a todos e principalmente ao atleta o tempo. Olhar ao atleta e dizer: “meu filho, o relógio não mente, tu eh um amarra o!”.

Acho que eh isso por agora, essas são as minhas ideias e sugestões sobre as regras de hoje. Acho que ajudaria muito o nosso jiu-jitsu, as competições e a arbitragem principalmente.

Valeu galera…Grande abraço! Espero que vocês tenham entendido as minhas palavras. OOSSSS!!!”

– André Galvão

Fonte: André Galvão Fan Page Oficial(facebook).

Um pouco sobre André Galvão

André Luis Leite Galvão é um lutador brasileiro e ex-profissional de artes marciais mistas. Ele ganhou o Campeonato 2011 ADCC Submission Wrestling Mundial (peso e absoluto), o MUndial de Jiu-Jitsu e Campeonatos Pan-Americanos várias vezes e também tomou o terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 2007 ADCC Submission Wrestling em ambos. Ele fez sua estréia misto de artes marciais em 2008, e em 2009 ele entrou SONHO ‘s 2009 Welterweight Tournament.

André Galvão é um aluno faixa preta 3º grau sob BJJ lenda Fernando “Tererê” Augusto e agora lidera a equipe Atos Jiu-Jitsu, em San Diego, Califórnia. Ele é o autor do livro de artes marciais, Broca to Win: um ano para Melhor Brazilian Jiu-Jitsu (Victory Belt Publishing, 2010). Ele se concentra em aprender as habilidades de transição do Jiu-Jitsu, Submission Wrestling e MMA através de dieta adequada, exercícios de relaxamento e treinos técnicos.

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Sobre o Autor

André Miranda

Nascido no Rio de Janeiro, mas, devido a sua ascendência nordestina, criado na Bahia, começou Karatê em 1988, na extinta Lince Karatê Clube, com a Sensei Amanda Barcelar Pires (primeira faixa-preta mulher da Bahia, aluna de Denilson Caribé - ASKABA). Graduou-se faixa preta pela FNAM, com o Sensei Masco Monteiro. De volta ao Rio de Janeiro, continuou seu treinamento com o Sensei Humberto Amorim (6º Dan), no Quartel São João da Urca, com quem continua treinando. Praticante do estilo Shotokan Ryu, o qual é 3º Dan, em 2009 começou a praticar Jiu-Jitsu (sob a orientação do Sensei Gustavo Souza - 6º Dan) e Aikido (sob a orientação do Sensei Luciano Santana - 4º Dan). Amante da cultura Japonesa fundou o Instituto Ishindo, onde busca difundir a cultura e tradição marcial japonesa.

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