Kyujutsu

kyujutsu

A ARTE DO ARCO E FLECHA

“O que nos surpreende na prática do tiro com arco e na de outras artes que se cultivam no Japão é que não tem como objetivo nem resultados práticos, nem o aprimoramento do prazer estático, mas exercitar a consciência, com a finalidade de fazê-la atingir a realidade última (iluminação).” (SUZUKI / HERRIGEL, p. 9, 1975).

Muito embora os samurais tenham se eternizado como exímios espadachins a principal arma utilizada na guerra era o arco, arma a qual também dominavam com maestria.

Esta técnica chamava-se Kyujutsu, e era muito usada pelos samurais, durante o período feudal do Japão, nas inúmeras guerras ocorridas entre os feudos. Seu uso poderia se dar por soldados de infantaria ou na cavalaria.

Contudo, devido aos longos tempos de paz, aos poucos o que antes tinha como principal fundamento a guerra, passou a ser utilizado como meio de se atingir algo mais profundo; associado à prática do zen, o tiro com arco japonês ganhou conotações de arte, sendo, por conta disso, preenchido com uma substanciosa doutrina filosófica.

Assim, o que até o século XVII era denominado Kyujutsu, passou a ser conhecido como Kyudo (ver artigo história do Kyudo). Que poderíamos traduzir como “Caminho (Dô) do Arco (Kyu)”.

Diferente do tiro com arco europeu, que trata puramente de um esporte, o Kyudo nasce da tradição Zen-Budista, que tanto influenciou outras tradições orientais e do Xintoísmo, religião oficial do Japão. A tradição de atirar com o arco se dava não apenas para a caça e a guerra, mas também nos ritos religiosos; por conta disso é que, ainda hoje, em muitas cerimônias do Kyudo, os trajes utilizados pelos arqueiros derivam diretamente do Xintoísmo. Já o Zen-Budismo foi incorporado durante o período Kamakura (1185-1333), como meio de se buscar a perfeição moral.

Desta forma, o Kyudo não encontra seu fim em si mesmo, pela prática no manejo do arco, onde se busca atingir o alvo, mas através da prática de suas técnicas se busca um caminho para algo de maior valor, ou seja, busca-se atingir um grau de harmonia pessoal, mental e até mesmo espiritual.

Embora o Kyudo tenha suas raízes no Zen-Budismo e Xintoísmo, não significa que seja conflitante com praticantes de outras doutrinas religiosas, visto que, sua prática não tem qualquer conotação teológica, mas apenas principiológica, ou seja, através dos exercícios físicos do Kyudo, se busca a paz interior tão preconizada nas diversas escolas teológicas.

O que é interessante no Kyodo é o alto grau de concentração que seus praticantes devem obter durante a sua prática; por conta disso é de suma importância para os praticantes de Kyudo treinar a meditação, cujo objetivo seja unir o aspecto espiritual em mental (Seishin Teki) com a realidade concreta e palpável (Gutai Teki) da vida cotidiana na nossa busca de desenvolvimento espiritual.

Assim o “Kyudo, em sua essência, nos proporciona um meio de alcançar um grau de concentração para criarmos um estilo que expresse a perfeita serenidade mental. O Kyudo é, portanto, um modo de vida, jamais um esporte. Para trilhar o Caminho, deve-se voltar os olhos pra dentro, em busca da própria alma, e transcender toda a preocupação exterior no que se refere a acertar o alvo.” (MORISAWA, p.14, 1984.)

Hoje o kyudo é praticado em diversos países do mundo, por milhares de pessoas – homens, mulheres e crianças – como método de desenvolvimento físico, moral e espiritual; longe de estar atrelado à necessidade do estudo do Zen-Budismo ou Xintoísmo, seus praticantes – muitas vezes – nem chegam a conhecer estas religiões ou com elas conflitarem.

Provérbios:
“Um tiro, uma vida.”
“Disparar deve ser como a água fluindo.”