As aparências, às vezes, enganam!

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Nas artes marciais, muitas vezes, somos avaliados pela nossa aparência.

Por mais que os anos e décadas tenham se passado, ainda percebemos na nossa sociedade uma avaliação baseada na aparência das pessoas. Dizer que tal coisa não existe, seria admitirmos a existência de Papai Noel!

Scott Adkins

Scott Adkins

Se isso existe na nossa sociedade, ela não estaria fora do universo das artes marciais. Já vi muito mais preferência de pessoas para terem aulas com profissionais daqui do Rio de Janeiro, dentro de uma academia onde disponibilizavam um profissional do norte do nosso país também em sua equipe de professores, do que quererem ter aulas com este último e ainda via muito preconceito por parte dos alunos para com este profissional.

Era notório o preconceito e o tratamento diferente dos alunos para com ele, se comparado ao tratamento que recebiam os profissionais cariocas. Outra coisa notória, é a avaliação se baseando no tamanho do braço ou estatura do profissional. Ainda vivemos o ledo engano do tamanho e força. Tais lutadores, altos e fortes, com aparência de academia de musculação, de fato possuem suas vantagens, mas possuem também desvantagens, tão quanto os lutadores mais baixos ou mais magros possuem suas vantagens e desvantagens.

Se algum canal de TV fizesse uma pegadinha com a população, colocando uma fileira de homens altos, fortes, outros apenas fortes e eu e alguns profissionais que conheço, que não aparentam ter força e nem são altos, e perguntassem às pessoas que estivessem passando, quem essas pessoas acham que é um profissional das artes marciais, certamente eu e esses alguns que conheço, não seríamos apontados como tais.

Portanto na cabeça da maioria, homens baixinhos e aparentemente frágeis, derrotando homens altos e fortes, só nos filmes! Filosofia de lutar só pela defesa de si e da família e em últimas circunstâncias? Só nos filmes também para esses! As pessoas buscam quem parece ser forte, quem parece nunca ter sido derrotado, quem parece ser popular e ensinar a ser popular e assim por diante.

Naka Tatsuya Sensei

Naka Tatsuya Sensei

E foi justamente essa ideia que foi vendida sobre os heróis das artes marciais na mídia mundial, principalmente de uns anos para cá. E com isso, houve uma deformação da ideia do que sejam as artes marciais. Apesar de todo caminho marcial ter uma moral elevada e ter como intuito a valorização do caráter, construção de uma sociedade pacífica etc., posso apenas falar do Karate-Do. E digo a todos os meus amigos leitores que acompanham meus textos o que seja o Karate-Do, segundo entendo e aprendi sobre o que é esta arte marcial.

Ser um verdadeiro seguidor e representante do Karate-Do em sociedade, é deixar a agressão do outro passar direto e, como se estivéssemos lutando fisicamente num kumite, saíssemos em taisabaki deixando a intenção e energia negativa que este nos dirige passar direto sem nos acertar. Ser um representante do Karate-Do, segundo entendo, é evitar o máximo os desentendimentos com outros profissionais também das artes marciais, evitar desentendimentos e conflitos com pessoas as quais não lhe compreendem ou veem nas suas palavras e atitudes uma posição contrária a delas. Nunca agradaremos a todos e muito menos estaremos livres de críticas destrutivas.

Kanazawa Hirokazu Sensei

Kanazawa Hirokazu Sensei

Muitas vezes sabemos e, se não sabemos devemos buscar saber, o potencial que temos. É importante nos conhecermos intimamente e tecnicamente, para evitarmos o conflito direto. Desta forma, agindo centradamente, saberemos que não estamos fugindo ou temendo o outro, mas sim estamos enobrecendo e honrando nosso Caminho, aplicando na vida o que aprendemos na arte.

A partir do momento em que eu perder o meu centro, enfrentando o outro ou mesmo desbancar alguém para me fazer forte perante ele e os outros, eu não honro a minha história e tradição no Karate-Do.

Se verdadeiramente nos conhecemos tecnicamente, sabemos que podemos nos defender de qualquer pessoa. E com isso alcançamos o conforto íntimo que buscamos. Mas com isso, não digo que essa autoconfiança deva nos paralisar na busca do aperfeiçoamento, mas sim nos fazermos maduros para realmente dizermos que somos profissionais da arte marcial que representamos.

Se eu disser para alguns alunos: “sejam pacíficos”,“ignorem as agressões alheias” ou mesmo “busquem ser tolerantes” e, na prática eu não exercitar a tentativa de ser tudo isso e ainda trouxer à tona desafios a outros profissionais da minha ou de outras artes marciais; se eu só souber coexistir em sociedade com outros profissionais de Karate-Do ou de outras artes marciais dependendo disso para ser feliz, pensando que sou melhor que todos, eu estarei sendo teórico!

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É triste, mas a realidade é justamente essa, pois as pessoas buscam profissionais que lhes pareçam infalíveis e pior que isso! Elas buscam técnicas e mais técnicas para serem completas marcialmente falando, mas não completam em realidade, muitas vezes, os seus estudos dentro de um sistema tradicional. É importante que as pessoas saibam que grandes mestres, em sua maioria, eram altamente graduados em um sistema tradicional e tinham altos conhecimentos dessas artes que praticavam quando então, tiveram a maturidade de criar estilos novos.

Quem não conhece, conheça o trabalho do mestre Hélio Arakaki, pois se há alguém no universo do Karate-Do que busca viver o Karate-Do em essência, na prática ensinando publicamente a filosofia desta arte marcial, é este mestre. Não que ele seja o único, pois o meu Shihan também vive e exemplifica esta arte marcial, mas publicamente, só conheço este mestre. Inclusive, certa vez, ele relatou que um aluno dele havia perguntado se ter aulas de outras artes marciais seria bom para melhorar dentro do Karate.

Hélio Arakaki Sensei

Hélio Arakaki Sensei

Segundo a opinião do Shihan Hélio Arakaki, isso não auxiliava no crescimento dentro do Karate-Do. É o que digo também, ou seja, muitos estudam várias artes marciais, no intuito de não deixarem nenhum espaço vazio e serem completos para não serem derrotados sobre hipótese alguma, mas por vezes nessa busca, deixam de se concentrar em aprendizagens fundamentais de sua primeira arte estudada, e por isso, esses não têm a base firme dentro de sua arte marcial e estilo central, ou seja, no primeiro estilo que estudaram e que deveriam ter o domínio.

Por isso acredito que devamos buscar termos aulas com profissionais reais no sentido de serem profissionais que, mesmo que não aparentem ter o esteriótipo de lutadores, ou mesmo que guardem suas características regionais (costume, linguagem – sotaque – ou física), tenham uma base técnica e filosófica forte para nos passar.

O tempo não passa em vão. E por isso mesmo ele acaba sendo cruel com todos nós e leva nossa disposição, nossos corpos malhados, nossa força e toda e qualquer acrobacia que fazemos hoje. E o que ficará será a essência da técnica e a filosofia.

Busquem pessoas verdadeiras e não personagens que, por serem aparentemente fortes, colocam mais de sua brutalidade e que por vezes ridicularizam os próprios alunos no período de aprendizagem em suas aulas, para mostrar sua pseudo superioridade. Busquem pessoas as quais lhe ensinarão a se defender de todo tipo de situação. Busquem quem lhe proporcione uma defesa pessoal real e um verdadeiro senso de autoconfiança.

Já diziam os próprios Gracies que as pessoas devem buscar praticar algo que realmente funcione em sua defesa pessoal e não algo que dê um falso senso de autoconfiança.

Usando mesmo o exemplo dos próprios Gracies, que por muitos anos estiveram esquecidos da mídia desde a época dos veteranos dessa família, lutando em desafios em décadas bem anteriores como as lutas do mestre Hélio e Carlson Gracie. Mas quem acreditaria que Royce Gracie venceria tantos homens fortes nos Estados Unidos? Quem acreditaria que Rickson Gracie venceria homens tão grandes e fortes no Japão?

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Será mesmo que muitos que estão matriculados nos Dojo da família Gracie e de Ju Jutsu* em geral no Brasil e mundo desde os anos 90, estariam matriculados hoje nestas escolas se não houvessem existido tais lutas? Será mesmo que as artes marciais exploradas no cinema teriam sido esquecidas durante anos, como foram na era Gracie Ju Jutsu, se tais mestres de Ju Jutsu brasileiro não tivessem vencido tantas lutas?

Daí pode se tirar que, infelizmente, como em tudo na vida e na nossa sociedade, também nas artes marciais, tudo é medido pelas aparências. Se você aparenta ser mais forte do que o outro profissional, você deve ser muito melhor e eu quero ter aulas com você! Lamentavelmente é assim que acontece.

Boa semana para todos!

Sensei Allan Franklin

Oss!

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*Ju Jutsu – A forma tradicional e mais correta para nominar a “Arte Suave”, conhecida aqui no Brasil, e hoje em todo o mundo, como Jiu-Jitsu.

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About Author

Sensei Allan Franklin Pinheiro

Aluno do Bukaikan do Shiran Kung, discípulo direito e primeiro aluno do Shiran Kyoshi Benedito "Mão de Ferro" do Rio de Janeiro. Pratica neste Dojo os estilos Shotokan Ryu e Goju Ryu, tendo como intuito, resgatar a alma do velho Karatê de Okinawa.

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