DOKYO – O monge que queria ser Imperador

0

Dokyo e a Imperatriz Koken
Dokyo (m. 774) foi um misterioso personagem de grande destaque nos anos finais do período Nara.
Pouco se sabe sobre sua vida nos anos anteriores a 762, mas a partir de então, sua ascensão na corte foi meteórica. Ao que tudo indica, Dokyo conseguiu a confiança da então imperatriz retirada Koken (r. 749-758) ao curá-la de alguma doença com seus misteriosos poderes de cura. A relação de ambos tornou-se rapidamente próxima, ao ponto de a crônica histórica Nihon Ryoiki afirmar que Dokyo e a imperatriz “dividiam o mesmo travesseiro.”

Na época, o aristocrata mais influente da corte era Fujiwara no Nakamaro, que por desentendimentos com a imperatriz, acabou montando uma rebelião que terminou em fracasso, sendo morto no processo. Acredita-se que Dokyo possa ter ajudado a envenenar a relação de Koken e Nakamaro, fato que é corroborado pela rápida ascensão do monge após a morte do rebelde Fujiwara: em 764, Dokyo, que pelas graças de Koken já ocupava o quinto grau júnior na corte, é promovido ao altíssimo terceiro grau júnior, tornando-se um dos mais notáveis homens da corte. Em adição, ele também recebe um título criado em sua honra, o de Daijo Zenshi, Ministro Prelado.

Koken então força a abdicação de seu primo Junnin, que a sucedera ao trono (embora não em autoridade), exilando-o na ilha de Awaji e reassumindo o trono pela segunda vez, desta vez como Imperatriz Shotoku. Na ocasião, ela lança um édito afirmando que seu pai, o falecido Imperador Shomu, dera a ela a autoridade para depor imperadores, e escolher como sucessor ao trono aquele que fosse obediente a ela, fato que é interpretado por alguns como uma afirmação velada de suas pretensões de ser sucedida por Dokyo.

Em 765, Dokyo é nomeado Daijo Daijin Zenshi (Primeiro-Ministro Prelado), e em 766, Ho-O (Rei da Lei Budista), postos novamente criados para ele. O único até então a receber tão altas honras tinha sido o Príncipe Shotoku Taishi, no início do século VII, um dos mais eminentes personagens da antiguidade japonesa. Em 767, um escritório imperial para o rei budista é criado, aumentando ainda mais o poder do monge.

Vale lembrar aqui que toda a reputação de Dokyo não devia-se a nenhum conhecimento profundo da doutrina budista. Ele não era um monge de destaque antes do episódio que o aproximara de Koken/Shotoku. Quanto aos poderes por ele acumulados, embora muito altos, parecem ter estado limitados ao campo da religião, mesmo que não apenas ao budismo.
No entanto, em 769 um oráculo de Usa Hachiman proclama que “a nação tornar-se-ia tranquila se Dokyo fosse nomeado sucessor de Shotoku.” Tal evento causa um alvoroço na corte, e nobres buscam o oráculo pela segunda vez, desta vez recebendo a mensagem de que “o trono não deveria ser ocupado por alguém de fora do clã imperial.”

No ano seguinte, Shotoku morre aos cinquenta e três anos, sem filhos e sem nomear um sucessor. Com sua morte, Dokyo é exilado, morrendo poucos anos depois, e o trono passa a ser ocupado por um distante descendente do Imperador Tenji, encerrando de vez o um século de reinado dos sucessores de Tenmu. A rápida ascensão de Dokyo, de maneira totalmente arbitrária e extra-legal, pode ter acelerado o desprestígio e a crise de autoridade da linhagem de Tenmu, levando a corte a buscar na linhagem de Tenji uma saída para as calamidades políticas que enfrentava.

Obras recomendadas:
BARY, William Theodore de (Ed.). Sources of Japanese Tradition, Volume 1: From Earliest Times to 1600. 2. ed. New York: Columbia University Press, 2001.
BROWN, Delmer M. (Ed.). The Cambridge HIstory of Japan, Volume 1: Ancient Japan. 3. ed. New York: Cambridge University Press, 1993.
OOMS, Herman. Imperial Politics and Symbolics in Ancient Japan: The Tenmu Dynasty, 650-800. Honolulu: University Of Hawai’i Press, 2009.

 

Gostou desta publicação? Ajude o NEJAP a crescer e curta nossa página!

Para curtir nossa página, basta clicar no link abaixo:

Facebook/NEJAP


 

Compartilhe.

Sobre o Autor

Kauê Metzger Otávio

Residente de Florianópolis, Santa Catarina, aluno que transita errante pelos departamentos de História e Letras da UFDC, começou a estudar história japonesa como hobby, no ensino médio. Mais tarde, na faculdade, passou a dar uma ênfase maior à história japonesa, posteriormente interessando-se também pela sua literatura. Há dois anos começou seus estudos em história chinesa, embora ainda esteja engatinhando nesta área. Objetivo: "Pretendo disputar em duelo de iaijutsu por uma vaga para mestrado no Japão."

Comments are closed.