Butsudô – O caminho de Buda

Butsudô – O caminho de Buda

Nas culturas tradicionais do Oriente não existe o conceito de Religião. Na língua japonesa de hoje, por exemplo, está é designada pela palavra shokyo, mas esta não passa de um empréstimo à língua clássica chinesa feitos pelo eruditos do século XIX para traduzir o conceito ocidental de Religião. O que conhecemos hoje por Religião era chamado de Lei, Doutrina ou Caminho. Assim, o que hoje chamamos de religião budista outrora recebia o nome de Caminho de Buda (Butsudo – em japonês).

Na realidade, o conceito de Caminho é bem mais amplo do que o de Religião. Distinções como Religião, Filosofia, Arte e Ciência são próprias da civilização do Ocidente. O Caminho, no Oriente (Marga em sânscrito, Tao em chinês, Michi ou Dô em japonês), engloba componentes religiosos, filosóficos, artísticos e até científicos.

O Caminho é, entre outras coisas, um processo de aprendizado e de transformação da pessoa. Está relacionado com o discurso que enunciamos e com o percurso ou caminhada que efetuamos ao longo da vida. O Caminho oriental é tudo isso. POr isso, Lao Tze em primeira preposição: O Tao (Caminho) que pode ser enunciado (tao) não é o Tao Perene. Em outras palavras: O Caminho que pode ser discorrido não é o Caminho Verdadeiro.

O erudito japonês Prof. Hajime Nakamura, especialista em Filosofia Indiana, realizou um estudo comparativo das maneiras pelas quais as culturas orientais entendem e vivem o Caminho. O Caminho dos indianos é predominantemente teórico, metafísico, preocupado com as grandes questões universais. Já os chineses, povo predominantemente pragmático, preocupado com o particular e o concreto, entendem o Caminho com algo prático e imediato. Já os japoneses são, antes de tudo, artistas natos que possuem uma visão estática da realidade. Assim, o Caminho, no Japão, é predominantemente artístico. A civilização japonesa expressa através da Arte sua vivência dos conteúdos metafísicos e pragmáticos herdados da Índia e da China.

Não podemos compreender a cultura japonesa e suas criações sem nos reportarmos a suas raízes budistas. Assim como dizemos que a filosofia helênica e a religião cristã são os alicerces intelectuais e espirituais da cultura ocidental, há que dizer que os fundamentos da cultura nipônica estão no Caminho de Buda.

Butsudo-BudaO Budismo, originário da Índia, é um Caminho de auto-conhecimento através do qual o homem procura buscar o significado da vida e a alegria de ter nascido, alcançado o mais elevado grau de autoconsciência possível. Chegou ao Japão via Coréia e China em meados do século VI, época em que o Estado centralizado ensaiava seus primeiros passos. Desde então, ao longo dos séculos, o Caminho Búdico estimulou o desenvolvimento de inúmeras atividades artísticas, elevando-as do nível puramente técnico e estático – jutsu – à dimensão de Caminho – dô.

Assim, aqueles que se dedicam a atividades como a Cerimônia do Chá (cha no yu ou chadô, o Caminho do Chá), os arranjos florais (ikebana ou kadô, o Caminho das Flores), a dança clássica, o teatro Nô, o haikai (haiku), a caligrafia ou as artes marciais – que no Japão adquiriram uma não negligenciável dimensão estética e também foram elevadas à categoria de Caminhos – ao mesmo tempo em que buscam a perfeição nas mesmas, trilham um Caminho de aprimoramento do caráter e de autoconhecimento através do cultivo da tranquilidade e da autoconsciência.
Há que esclarecer que essa associação entre o Caminho Búdico e as atividades artísticas não é umacriação arbitrária dos japoneses, ela possui sólidos fundamentos escriturísticos. Dentre as inúmeras Escrituras Sagradas Budistas que exerceram grandes influências sobre a formação e desenvolvimento da cultura japonesa, temos o Sutra da Guirlanda de Flores (Avatamsaka em sânscrito, Kegon em japonês), externo discurso que, além da descrição do conteúdo da experiência do despertar vivida pelo fundador histórico do Budismo, o Buda Gautama, contém uma vasta explanação a respeito das Dez Terras (Dhasabhumi em sânscrito) ou Dez Graus que constituem o Caminho do Bodhisattva, discípulo que, ao mesmo tempo em que busca sua realização pessoal, se empenha em beneficiar todos os seres viventes.

Na exposição referente à Quinta Terra, denominada Difícil de Conquistar (Sudurjaya em sânscrito, Nansho-ji em japonês) é dito que nesse Grau, deve o Bodhisattva se adestrar no conhecimento das diferentes artes e ciências profanas, para melhor servir os eres viventes. A Poesia, o Teatro, a Música, a Narrativa, o Humorismo, a Jardinagem e a Floricultura são algumas atividades arroladas pela Escritura, várias das quais foram mais tarde elevadas pelos japoneses ao nível de Caminhos. Não poucos mestres budistas japoneses forma também cultores de uma ou várias dessas artes.

Por Ricardo Mário Gonçalves
Fonte: Livro “Dô – A Essência da Cultura Japonesa.