Espírito ou Técnica?

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Esta é uma pergunta que sempre ronda os Dojos de Karatê.

É lógico que a técnica é muito importante, mas se estiver desassociada do Espírito Guerreiro, então, será mera coreografia. De outro lado, se só existir espírito, corre-se o risco de virar mera força bruta. Assim, é importante treinar a técnica enquanto fortalece o espírito.

Lembrando as palavras do grande espadachim Miyamoto Shimen Musashi, tão bem citado pelo nosso ilustre Faixa Preta Lyoto Machida…

“Entre a força e a técnica, vence a técnica. Se a força e a técnica forem iguais, vence o Espírito.”
– Miyamoto Musashi

– Equipe Instituto Ishindo

Espírito ou Técnica?

Por Sensei Roberto Sant’Anna.

Este final de semana, após um excelente bate papo com Sempai Carlos Rocha, cheguei a uma conclusão interessante. Hoje em dia, percebe-se uma grande ênfase na parte técnica do Karatê-Dô.

Esse comportamento, por parte dos Mestres, deve-se ao fato, principalmente, de que o pessoal de antigamente, apesar de muito fortes espiritualmente, devido ao treinamento árduo, também traziam muitas lesões articulares.

A maioria destes Mestres, hoje em dia, tem problemas sérios de joelho ou cotovelo, incluindo este que vos fala. Aqui no Brasil, anos atrás, no período ainda das competições, onde não se usavam protetores bucais nem luvas, era comum as pessoas dizerem que nosso grupo era muito forte, mas que não possuía muita técnica.

Lembro-me como se fosse hoje, de um Campeonissimo de Kata, de SP, chegar a dizer que nenhum aluno de Okuda Sensei venceria na modalidade Kata, já que a maioria era força bruta. Ledo engano! Exemplo é o Sr. Antonio Gomes Martins, imbatível enquanto competia na modalidade.

Houveram outros também, como Carlos Rocha, Seigen Imanaga etc… Mas este não é o ponto. Sempre tivemos a certeza de que tivemos o melhor Karatê que podíamos ter tido.

Vou explicar:

Todos os Professores japoneses que chegaram aqui antes de Okuda, não eram Profissionais da Arte Marcial. Por algum motivo desconhecido, vieram ao Brasil para trabalhar e trouxeram na bagagem o Karatê Universitário.
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Já Okuda, veio como Instrutor enviado diretamente do Curso de Profissionais do Japão, conhecido como Kenshusei. A diferença neste detalhe é imensa.

Com o devido respeito a todos os Mestres chegados aqui antes dele….nada se comparava aos treinamentos na Butoku-kan. Nunca se havia visto um Karatê tão forte aqui no Brasil.

O próprio Nakayama Sensei chegou a dizer, em uma visita que fez ao Brasil em 75, que Okuda tinha um exercito de Samurais ali.

Oishi também teceu alguns comentários neste sentido.

Outros Mestres, tiveram a sorte de terem grandes talentos como alunos, o que também deu a eles um certo status, mas indiscutivelmente o nível do Karatê era bem diferente. Exemplo, bastava ficar frente a frente com alguém da Butoku-kan no Kihon Ipon Kumite para sentir a diferença.

A sensação era bem pior do que estar num Jyu Kumite. Naquela época, braço quebrado era comum neste treinamento. Não defendeu…Hospital na certa. Cansei de ver grandes Campeões de Karatê fugirem de alunos de Sensei Okuda nos Gashukus Nacionais….era fato comum. A desculpe era sempre a mesma……são muito grossos…
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Lembro-me como se fosse hoje de um Curso do Sensei Nishiyama por aqui, em 81, onde ele pediu para ver o Kata do Sensei Carlão e ficou impressionadíssimo com o que viu.

O segredo esta ali nos treinos de Okuda Sensei, recém chegado do Japão. O mesmo curso que ele fez era a aula diária nos seus treinamentos. Não estava nem ai se perderia alunos ou não…e perdeu muitos….cansei de ver alunos migrarem para outros Mestres após serem reprovados em exame de faixa preta. Recuou um passo, não passava.

Responsabilidade enorme para Okuda Sensei, alguém ter um Diploma assinado por ele. Fui o mais jovem Sandan do Brasil, aos 24 anos. Carlão Sempai me confidenciou que Okuda estava preocupado em me conceder a graduação, haja vista minha idade e inexperiência. Após o exame, duríssimo por sinal…fiz ao menos 6 lutas de Jiu Kumite, Okuda ainda pediu que Sempai Carlão me desse uma repassada….foram os piores minutos de minha vida…mas sobrevivi.

Neste final de semana ele me disse que ao voltar a SP, disse a Okuda que eu estava OK, que merecia ter siso aprovado, tomei algumas e muitas, mas não recuei…cai 7 e levantei-me 8 vezes. Isso é Karatê-Dô.

Hoje em dia quando vejo o nível dos examinados, da vontade de chorar. Eles não fazem ideia do que eram os anos 70-80. MMA é moleza, comparando. Enfim, gostem ou não meus inimigos…NUNCA HOUVE e nunca haverá outra Equipe quanto aquela de Okuda Sensei nos anos 70-80. Hoje, pelo Brasil afora,existem muitos de seus ex-discípulos, divulgando ainda o real Karatê-Dô…ainda bem.

Fonte: http://wwwkenshuseikarate.blogspot.com.br/

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About Author

André Miranda

Nascido no Rio de Janeiro, mas, devido a sua ascendência nordestina, criado na Bahia, começou Karatê em 1988, na extinta Lince Karatê Clube, com a Sensei Amanda Barcelar Pires (primeira faixa-preta mulher da Bahia, aluna de Denilson Caribé - ASKABA). Graduou-se faixa preta pela FNAM, com o Sensei Masco Monteiro. De volta ao Rio de Janeiro, continuou seu treinamento com o Sensei Humberto Amorim (6º Dan), no Quartel São João da Urca, com quem continua treinando. Praticante do estilo Shotokan Ryu, o qual é 3º Dan, em 2009 começou a praticar Jiu-Jitsu (sob a orientação do Sensei Gustavo Souza - 6º Dan) e Aikido (sob a orientação do Sensei Luciano Santana - 4º Dan). Amante da cultura Japonesa fundou o Instituto Ishindo, onde busca difundir a cultura e tradição marcial japonesa.

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