Teatro

O teatro tradicional japonês é expresso através de quatro gêneros: o nô, o kyogen, o kabuki e o bunraku. Esses diferentes tipos de espetáculos artísticos têm como característica principal a união entre a representação, a dança e a música — o canto e os instrumentos musicais. Embora o tema muitas vezes seja associado ao cotidiano da vida da nobreza em paralelo ao da plebe, sua origem está associada à religião xintoísta ou budista, tanto no sentido mitológico quanto histórico.
Teatro japones
O sentido mitológico se atribui à lenda, contada no Kojiki (livro sagrado do Xintoísmo), sobre a dança que a deusa Uzume realizou, durante o episódio do auto-isolamento da deusa Amaterazu (deusa do Sol). A história começa quando os deuses Izanami e Izanagi enviam seu filho Suzanoo (Susano’o-no-mikoto) para a Terra de Yomi (Terra dos Mortos), como castigo pelas suas más ações, mas antes de partir Suzanoo visitou sua irmã Amaterasu (deusa do Sol), e em sua presença se comportou mal, lhe pregando brincadeiras inoportunas e maldosas, irritando a deusa do Sol, que resolveu se recolher à uma caverna, levando, com isso, o mundo para a escuridão. Somente após muitas tentativas em vão, por parte das demais divindades (kami) é que a deusa Uzume (deusa da alegria) executou um dança tão ridícula e obscena que levou os deuses a gargalhadas. A curiosidade de Amaterasu foi tão grande que ela afastou a pedra que lacrava a entrada da caverna e saindo para ver o do que riam, iluminou todo o mundo novamente.

O sentido histórico está associado às danças executadas durante as apresentações teatrais, que derivam das danças religiosas que eram executadas em templos, santuários e festivais como a kagura — dança xintoísta —, a gigaku e a bugaku — danças budistas com origem na Índia e China respectivamente —, além de danças populares como a dengaku e a sarugaku deram origem as formas tradicionais de teatro no Japão.

Vejamos, então, cada um dos tipos de teatro tradicional japonês.

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O nô foi criado pelo ator e dramaturgo Kan’ami (1333-1384), quando uniu o sarugaku com a música e a dança e desde sua criação no século XIV, não sofreu significativas mudanças. Podemos, portanto, conceituar o nô como uma forma clássica de teatro japonês, que explora a temática do drama lírico, combinando canto, música e poesia, derivadas de outras formas teatrais, tanto aristocráticas quanto as populares, incluindo, nesse contexto, o Dengaku, Shirabyoshi e Gagaku, que explicaremos em outros artigos.

Caracteriza-se principalmente pelo seu estilo lento de movimentos sutis em que o protagonista, chamado Shite, usa uma máscara com pinturas japonesas, representando um espírito errante, que contracena com um ator coadjuvante, chamado waki, que representa um monge. Em toda narrativa há um coro que auxilia na condução da trama. Costuma-se dizer que o teatro nô não é algo a ser compreendido, mas sentido.

No Brasil existe uma associação de teatro Nô, chamada Hakuyokai, e está localizada na cidade de São Paulo, mas infelizmente já há alguns anos que não fazem mais apresentações.

Kyogen

KyogenO kyogen tem as mesmas origens do nô, evoluindo de interlúdios cômicos, para substituir a natureza exigente do nô, como teatro informal, que destaca a fragilidade do homem. A separação entre os dois estilos de sarugaku se deu no século XIV, quando se denominou o sarugaku humorístico de kyogen, em diferenciação do sarugaku sério, isto é, o nô. Por serem artes análogas, eram interpretadas em conjunto e vistas como uma unidade e, por isso, o kyogen também ganharia o patrocínio da elite aristocrática durante os séculos seguintes a sua criação.

Nascido como intervalos entre as apresentações de teatro nô, o kyogen evoluiu para peças com programas próprios, e seu objeto não é outro senão provocar risos. Além do contraste mais óbvio entre o drama Nô e a comédia Kyogen, outras características os diferenciam. No drama Nô, por exemplo, existe apenas um personagem principal, enquanto que no Kyogen, existem dois grupos de personagens que protagonizam diálogos entre si, em linguagem coloquial.

Kabuki

O kabuki é uma forma de teatro em que se prima pela exuberância tanto dos cenários, quanto do figurino, incluindo neste as chamativas maquiagens coloridas usadas pelos atores. Mas, talvez a característica mais marcante seja o fato de que todas as personagens são interpretadas por homens. Mas nem sempre foi assim, há quatrocentos anos as coisas eram diferentes.
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Atribui-se a “criação” do kabuki a uma trabalhadora do santuário Izumo em Quioto chamada Okuni em 1603. A princípio a palavra kabuki significava algo chocante, pouco convencional e foi aplicada ao estilo de dança de Okuni e dos grupos de artistas que a imitavam (kabuki-odori). Nesta época, o kabuki era representado por mulheres (onna Kabuki) Entretanto, com o passar dos anos, os papeis femininos passaram a ser interpretados por homens e, assim, todos o integrantes do teatro kabuki são homens.

Dentro do repertório de temas do kabuki, podemos citar três tipos: as peças históricas (jidai-mono), as peças com temas cotidianos (sewa-mono) e as peças que destacam a dança (shosagoto). Já ao se classificar as peças de acordo com sua orgiem, pode-se diferenciar entre aquelas criadas especificamente para o kabuki, as influenciadas pelo bunraku (gidayu-kyogen) e as doshin kabuki (novo kabuki).

Bunraku

O Bunraku consiste em uma forma de teatro com fantoches, e seu nome deriva do teatro de Osaka, que foi o único a manter este tipo de arte até a presente época. Também chamado de ningyo joruri, em que ningyo significa boneco ou fantoche e joruri é um estilo de canto.
Bunraku
A origem do bunkafu, embora desconhecida, é atribuída a uma outra forma análoga de apresentação com bonecos, que era feita de forma cerimonial nos templos, para agradar aos deuses. Durante o passar dos séculos, outras formas de apresentação com bonecos foram surgindo e, finalmente durante o século XVI alguns artistas intinerantes juntaram a apresentação com bonecos, com o canto joruri e formaram os primeiros teatros de marionetes do Japão, que com o tempo e evolução dos bonecos e da linguagem teatral o Bunraku foi se formando.

Os bonecos utilizados no bunraku são compostos de várias partes: cabeça, ombros, tronco, braços, pernas e vestimenta. Curiosamente, os bonecos de personagens femininas geralmente não têm pés, já que os quimonos que vestem as cobrem completamente. Cada boneco é controlado por três pessoas, que inicialmente não apareciam para a plateia, mas desde que Tatsumatsu Hachirobei, um grande mestre, apareceu ao público na peça “Os suicídios de amor de Shinozaki” (Shinozaki shinju), os três controladores trabalham à vista. Da mesma forma, o tocador de shamisen e o narrador (tayu) não apareciam para o público, mas desde que Takemoto Gidayu cantou na frente do público ficam em uma plataforma à direita do palco. É possível haver mais de um tocador de shamisen e tayu em ocasiões específicas, como a interpretação de uma peça do kabuki.

Takarazuka Kagekidan

Takarazuka Kagekidan
O Takarazuka é um tipo de musical japonês onde somente mulheres podem atuar. Elas são divididas em “otoko-yaku”, ou papel masculino e “onna-yaku”, papel feminino pela sua altura.