A Natureza da Não-Mente

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“Quando um ser humano entra num estado de “não-mente”, ele é capaz de discernir imediatamente os movimentos do oponente. Esse poder intuitivo é um requisito especial das artes marciais. Nossos predecessores falavam do sen (antecipação) nas artes marciais; essa antecipação não era uma resposta calculada, mas sim natural e intuitiva. A pessoa precisa transcender as noções de si mesmo e do outro, de vitória ou de derrota.

Com uma mente completamente resolutiva; desse estado harmonioso emerge um fluxo natural de ki, e a resposta se configura apropriada, envolvendo o oponente com movimentos suaves, contínuos e sutis. Dessa maneira, o oponente pode ser controlado inconscientemente pelo nosso movimento.”
– Kisshomaru Ueshiba, A Arte do Aikido.

A natureza da não-mente é o estado em que se atinge o vazio, livre de intenções e pensamentos. Todos os praticantes de artes marciais deveriam fazer o treinamento da mente, em conjunto com o treinamento físico e técnico. Isto porque, quando a fadiga se apresentar, quando um golpe forte do oponente te atingir, somente o estado de não-mente será capaz de manter seu foco e serenidade.
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Takuan Soho, um monge budista que viveu entre os idos de 1600, no Japão Feudal, comentando sobre o estado de não-mente no contexto das artes marciais disse:

“quando tu percebes a espada que vem abater-se sobre ti, se tu pensares em enfrentar essa espada tal como ela está, tua mente vai fixar-se na espada segundo a posição em que ela se encontra; teus movimentos se perderão e tu serás atingido pelo oponente. É isso que significa fixar-se.

Embora vejas a espada que vem abater-se sobre ti, se a tua mente não for detida por ela e tu te conformares ao ritmo da espada que avança; se tu não pensares em abater o oponente e eliminares de ti todo pensamento ou julgamento; se, no instante em que tu vês o golpe da espada, tua mente não for minimamente detida e tu avançares e arrancares dele a espada; então a espada que vinha atingir-te será a tua própria espada e, de modo contrário, será a espada que atingirá o teu oponente.

A essência disso é que a espada que tu arrancas do teu adversário é a espada que vem a atingi-lo.”

Por este motivo, é tão importante manter a mente livre, mas não distraída, é uma atenção não fixa, fluida.

Para aqueles que foram iniciados em algum caminho de auto-conhecimento, dentre eles, o da arte marcial, já devem ter ouvido a expressão de “espírito inabalável”. (A Mente Liberta – Takuan Soho)
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Então, para explicarmos o que seria espírito inamovível ou inabalável, falemos sobre o que seria um espírito em movimento.

“O espírito em movimento é aquele que saiu do seu equilíbrio. É um espírito desequilibrado. Em meio a um combate devemos nos manter em equilíbrio e desequilibrar o oponente. O nosso espírito deve estar sem movimento e o do adversário em movimento.

No budismo, esse pensamento é denominado fudoushin.

Fu = “negação”,
dou = “movimento”,
shin = “espírito”.

Isso quer dizer, manter o espírito inamovível, inabalável.” (Jorge Kishikawa – Shinhagakure, p.280)

Ou seja, devemos cultivar uma paz espiritual, mesmo diante de situações que nos tirariam do equilíbrio. Pois bem, quer dizer que o praticante de artes marciais não deve permitir que nada abale a paz de seu espírito.

Em seu livro Gorin No Sho (O Livro dos Cinco Anéis) Miyamoto Musashi Sensei, nos ensina que “muitas circunstâncias podem provocar a perda do equilíbrio espiritual – o perigo iminente, uma situação difícil ou o fator surpresa.

Desequilibrar o inimigo é uma estratégia essencial. No combate individual, é importante se mostrar relaxado no começo, mas logo atacar súbita e decididamente, sem deixar espaço para reação, e assim alcançar a vitória.” (Gorin no Sho – Miyamoto Musashi)

Esta máxima está presente entre os ensinamentos de Gichin Funakoshi o pai do Karatê-Dô moderno, quando fala sobre a necessidade de se manter um treinamento constante e diz: “O KARATÊ É COMO A ÁGUA FERVENTE, SEM CALOR, RETORNA AO ESTADO TÉPIDO”.

“A concentração e o empenho contínuos são a marca do sucesso. Não faz sentido começar o estudo do Karatê-Dô como se você parasse no acostamento à margem da estrada para descansar um pouco no caminho para casa. Uma amostra casual do karatê, ou sua prática casual, não são suficientes.

Só com um treinamento contínuo você será capaz de perceber, na mente e no corpo, os benefícios do Caminho.” (Gichin Funakoshi, com comentários de Genwa Nakasone)

Já quando fala sobre o estado da mente durante o combate, diz: “NÃO PENSE EM VENCER, EM VEZ DISSO, PENSE EM NÃO PERDER”.

E continua seu pensamento citando, inclusive palavras do Shogun Tokugawa:

“Saber apenas como vencer e não como perder é se derrotar sozinho. Esta foi uma das últimas recomendações deixadas pelo Shogun Tokugawa Ieyasu antes de morrer.

A atitude mental a ser adotada é a seguinte: com base nos seus verdadeiros pontos fortes e na sua convicção inabalável, adote uma postura firme de não perder diante de nenhum adversário, seja ele quem for; ainda sim, por meio de um comportamento moderado, faça o possível para evitar atritos com os outros.

Lembre-se, um samurai deve ser suave por fora, [praticando a cortesia, a benevolência e a humildade], e duro por dentro, [com espírito forte e inabalável, conduta correta e inflexível para assuntos que dizem respeito a caráter, justiça e honra].

Desta forma, quando em combate fará um leão se afugentar e encolher de medo; enquanto em momentos de paz, até uma criança correrá para os seus braços, diante de um só sorriso.

O karatê sempre foi considerada uma arte de cavalheiros. Portanto, o praticante deve ter a mente suave por fora, e o espírito forte por dentro.” (Gichin Funakoshi, com comentários de Genwa Nakasone)

Assim, independente da situação, é importante manter a mente livre de pensamentos e preocupações, adotando uma postura suave, tranquila e cortês com as pessoas, enquanto fortalece o espírito por dentro, através do treinamento constante.

Oss.
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About Author

André Miranda

Nascido no Rio de Janeiro, mas, devido a sua ascendência nordestina, criado na Bahia, começou Karatê em 1988, na extinta Lince Karatê Clube, com a Sensei Amanda Barcelar Pires (primeira faixa-preta mulher da Bahia, aluna de Denilson Caribé - ASKABA). Graduou-se faixa preta pela FNAM, com o Sensei Masco Monteiro. De volta ao Rio de Janeiro, continuou seu treinamento com o Sensei Humberto Amorim (6º Dan), no Quartel São João da Urca, com quem continua treinando. Praticante do estilo Shotokan Ryu, o qual é 3º Dan, em 2009 começou a praticar Jiu-Jitsu (sob a orientação do Sensei Gustavo Souza - 6º Dan) e Aikido (sob a orientação do Sensei Luciano Santana - 4º Dan). Amante da cultura Japonesa fundou o Instituto Ishindo, onde busca difundir a cultura e tradição marcial japonesa.

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