O Karate-Do e o mundo moderno

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Castelo de Shuri
O Karate-Do é uma arte marcial que se formos no sentido contrário, ou seja, viajarmos de trás para frente em seu histórico e raízes, podemos constatar que tem mesmo as suas raízes no Shorin Ryu, Shuri-Te e Kung Fu. Todas essas artes marciais pertencem ao velho mundo. Sendo assim, será mesmo que tecnicamente falando temos visto a busca pela essência dessa arte marcial na atualidade? Será mesmo que os caminhos que o Karate-Do trilhou e influenciou assim também a outros estilos de Karate a trilharem realmente foi o melhor caminho para todos nós? Será que há uma forma de resgatar publicamente a imagem desta arte marcial?

Não acredito que haja como isso acontecer e ser possível enquanto o foco for apenas o esportivo. E o pior é que isso hoje em dia atinge outras artes marciais também muito sérias como o Kung Fu e o Ju Jutsu especializado em Ne-Waza tão preservado aqui no Brasil pelo  falecido mestre Oswaldo Fadda e a família Gracie, pois esta arte segundo alguns profissionais dela, passa atualmente pelo processo de empobrecimento o qual o foco no esporte trás e distanciamento dos aspectos marciais.

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Não precisei aprender no Dojo o qual faço parte, que o Karate-Do era uma arte marcial tão poderosa, perigosa e forte capaz de matar com seus golpes. Aprendi isso em casa com um pai apaixonado pelas artes marciais!  No meu Dojo aprendi muito mais sobre isso e sobre a arte com meu Shihan Kung. Ao estudar o Karate-Do com essa ótica de uma arte marcial preparada para sobrevivência, uma arte marcial que possibilitava ao guerreiro de Okinawa a se defender de Samurais armados, realmente percebi que nada era exagero.

A arte marcial que eu estudava dia a dia, mês a mês e ano após ano, se mostrava mais marcial  a cada dia e comprovava a riqueza da mesma durante as aulas, explicações e ensinamentos de meu mestre. Percebi claramente que qualquer falha minha ou de um praticante desta arte marcial, jamais comprometeria sua potencialidade marcial e a culpa era completamente do praticante e não da arte em si.

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O Shihan Kung sempre nos disse e diz até os dias de hoje que a maioria das artes marciais você adapta elas a si, mas que o Karate-Do era a única arte marcial que você deve se adaptar a ela. A princípio pode parecer contraditório, pois todos nós sabemos que não só no Karate-Do como em todos os outros sistemas marciais, há sempre uma forma própria de se praticar e executar uma arte marcial. Portanto numa turma de 10 alunos dependendo do desenvolvimento, três a quatro se destacarão executando bem os fundamentos da arte, mas cada um com sua característica própria. Já os outros ficarão dentro do aprendizado básico em termos de execução. E geralmente são esses que expõe a arte de modo limitado e uniforme em rodinhas de amigos e com isso sendo cinturado e derrubado ao chão como até mesmo leva um direto de algum amiguinho praticante de Boxe ou Muay Thai.

Shihan Hirokazu Kanazawa, Shihan Tetsuhiko Asai e Shihan Taketo Okuda o qual reside em São Paulo por exemplo, são mestres de Karate-Do que fizeram a diferença durante suas vidas inteiras. Por outro lado, existem outros formados pelos mesmos escolas e mestres no Japão que são bons, mas se comparados a esses, são mais apagados tecnicamente. Mas encontrei a explicação do que o Shihan Kung dizia e fala ainda sobre nos adaptarmos ao Karate-Do, quando percebi que  todos esses mestres tinham em essência a mesma qualidade em kime, explosão, rapidez e  fluidez nesta arte e para tal, tiveram de fato que entender verdadeiramente a essência desta arte marcial e adaptar seus corpos a ela.

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Encontramos aqueles que creem que Kanazawa San e Asai San por exemplo, tenham criado novos estilos de Karate-Do e não seriam mais Shotokan puro. Eu particularmente acho lamentável essa concepção das coisas dentro do Karate-Do, pois isso denota uma visão ainda limitada e presa a certos aspectos que deixam a arte pobre. Esses mestres nada mais fizeram em suas buscas no universo das artes marciais do que afiarem o Karate-Do e perceberem uma visão mais fluida da arte. E isso inevitavelmente trouxe buscas no Karate ainda praticado em Okinawa e no próprio Kung Fu como suas respectivas biografias relatam.

Se em essência essa arte tem suas raízes na China e em Okinawa que inicialmente antes de pertencer ao Japão era da China, para o praticante crescer inevitavelmente ele deve perceber as semelhanças e descobrir assim as possibilidades dentro do próprio Karate-Do Shotokan Ryu e sem que com isso descaracterize a essência do Karate de Okinawa que tem como intuito derrubarmos com um golpe só. Mas como sempre pergunto: onde anda a busca pela técnica realmente do que temos em nossos kata?

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Como já disse temos técnicas com o corpo inteiro desde a cabeça aos dedos dos pés. Quem treina para ser realmente uma máquina de combate na atualidade? Quem treina busca fortalecer o corpo inteiro e não só os Seiken(nós dos dedos) no Makiwara vindo com isso os calos no punho? Quem realmente fortalece os dedos das mãos para usar como pontas de espada os garras? Quem treina os aspectos internos da arte como a respiração correta e até mesmo a meditação? Quem fortalece a faca das mãos para serem verdadeiros sabres?

Não há tais buscas e o pior! Quando reclamamos essas buscas, há quem diga: “ Não há necessidade de treinarmos ao modo antigo, pois o mundo mudou e ninguém quer matar ninguém!” Mas quem disse que deveríamos lutar esportivamente? Até onde sei, os mestres de Okinawa não eram a favor disso! Então não precisamos treinar o Karate-Do a  rigor como uma arte marcial de combate real, mas o Ju Jutsu no Brasil e mundo pode então ser  treinado de maneira séria pelos seus adeptos sem perder a essência ao ponto de que se nos depararmos com tais lutadores seremos facilmente derrubados e está tudo certo?

É aceitável que uma arte marcial tão forte como é o Karate-Do seja treinada de modo tão esportivo que seja vista pela sociedade como apenas um esporte, enquanto o Ju Jutsu treinado no Brasil que vem do Judo, ou seja, que vem de um caminho totalmente da autodefesa que apesar de possuir também ataques, possui muito mais uma argumentação técnica de defesa do que de ataque como o Karate, dentro da linguagem do Nage-Waza e principalmente do Ne-Waza seja visto como mais violento e perigoso que o Karate-Do? Orelhas estouradas que segundo alguns mestres antigos de Ju Jutsu no Brasil dizem ser sinal de uma guarda ruim, são sinais de que o lutador desta arte é perigoso, violento e não leva desaforo para casa! Mas colocarmos calos nos punhos é errado não é mesmo? Sinceramente acho isso lamentável!

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Mas como remar contra a maré é sempre difícil, serei como a voz do profeta que clama solitário no deserto, mas ainda assim serei honesto na minha caminhada incansavelmente sem parar. Escrevo para sites, dou minhas aulas e chamo a atenção de vários guerreiros do Karate-Do em função não de ser uma sumidade na nossa arte! Mas chamo a atenção daqueles que amam verdadeiramente essa arte pelo simples fato de falar o que muitos pensam também. Mas pergunto a vocês: por que não escrevo para alguma revista impressa? A resposta meus amigos é simples! A mídia não quer que nós tenhamos voz e força para remarmos contra a maré e o interessante mesmo para ela é que role dinheiro e mais dinheiro com o Karate-Do e artes marciais em geral da maneira que ajeitaram as coisas para muitos!

Portanto temos que fazer da internet um caminho para nos unirmos e vermos o Karate-Do muito mais que sobreviver, mas sim renascer dentro de cada um de nós e causar a mesma admiração, paixão, amor e interesse a juventude atual! Já que quem possui suas medalhas no universo do Karate-Do certamente não quer esse foco marcial na nossa arte marcial, pois esses estão em posições confortáveis, que venhamos a cativar e captar novos alunos e adeptos para o nosso caminho, pois se um país se faz com educação, decerto o mesmo é uma realidade com relação ao Karate-Do. Pergunte a um mestre veterano de Karate o que ele prefere. Ensinar alguém que nunca estudou Karate-Do ou corrigir um praticante da arte que é um atleta ha mais tempo? A primeira opção certamente será a resposta, pois tirar os vícios é sempre mais difícil!

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Para quem não conheceu a revista Kiai, Combate, Samurai, e até mesmo a importada Cinturão Negro e só conhece as revistas atuais, realmente não pegou um panorama mais amplo, pois todas essas atuais, são da era Vale Tudo para cá. E eu digo aos mais jovens o seguinte. Infelizmente os resultados de lutadores de Ju Jutsu contra esportistas de outras artes marciais, trouxe um pesadelo para o universo das artes marciais, trazendo assim uma descrença e um desinteresse por tudo que fosse mais profundo nas artes marciais e sobre técnicas mais sofisticadas.

Então cada vez menos fomos vendo revistas boas com matérias com mestres asiáticos, pois isso para esse público consumista do mundo atual, já não interessava mais, pois pensavam: “pra que preciso aprender tantas bases, formas, kata se nada disso funciona perante um especialista em Ju Jutsu?” Daí foram  sumindo as revistas, o interesse popular e ao mesmo tempo em que o Karate-Do vivia esse naufrágio marcial perante o púbico leigo e dentro dele perdíamos adeptos para essa arte que despontava mundo a fora, muitos profissionais focaram cada vez mais no Karate esportivo até os dias de hoje fingindo não ver essa realidade.

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Então cada vez menos víamos o entendimento dos praticantes de Karate-Do pelos fundamentos e técnicas da nossa arte! Por isso digo que realmente temos que prestar atenção no que a família Gracie falava a respeito do “treinar o que se usa realmente em combate”. Assim como também devemos acreditar no sistema que praticamos para então termos um senso real de autodefesa. Isso a família Gracie não encontrou nos olhos daqueles que enfrentaram.

Antes que acreditem que sou antipático ao Ju Jutsu, quero que cada vez mais fique claro que cito bastante o Ju Jutsu e os Gracies por acreditar que nós do Karate-Do devemos perceber com eles duas coisas. A primeira é que devemos acreditar, lutar e ter determinação e dedicação a nossa arte marcial, assim como eles sempre exemplificaram e acreditaram na arte marcial deles, também devemos proceder. A segunda coisa é que não podemos perder os olhos de tigre de guerreiro e a autoconfiança que sempre tivemos no passado e eles do Ju Jutsu possuem até hoje.

Então que esta reflexão sirva para que os nossos amigos do Instituto Ishindo percebam o quanto apreciamos nós do Instituto, o Karate-Do com sua essência filosófica, com seus valores, mas também e não necessariamente acima de tudo, valorizamos o Karate-Do como arte marcial que verdadeiramente é.

Uma boa semana para todos e que esta reflexão esteja presente em vocês amantes do Karate-Do Shotokan Ryu.

Oss!

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Sobre o Autor

Sensei Allan Franklin Pinheiro

Aluno do Bukaikan do Shiran Kung, discípulo direito e primeiro aluno do Shiran Kyoshi Benedito "Mão de Ferro" do Rio de Janeiro. Pratica neste Dojo os estilos Shotokan Ryu e Goju Ryu, tendo como intuito, resgatar a alma do velho Karatê de Okinawa.

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