Os Últimos Samurais Cristãos

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Pouco conhecida fora do Japão, a sangrenta revolta de Shimabara, no século 17, marcou a perseguição dos cristãos pelo Xogum e o início de uma era em que os japoneses se isolaram do mundo. Por Erika Kobayashi

Momentos antes de partir para a batalha, um samurai se ajoelha diante de uma cruz e reza, pedindo proteção a Deus. A seguir, ele se junta a uma milícia cujo estandarte é uma bandeira que retrata dois anjos e o cálice sagrado. No alto do tecido branco, lê-se a inscrição “Louvado seja o santíssimo sacramento”. Pode parecer surreal, mas cenas como essas aconteceram em pleno Japão feudal.

A rebelião de Shimabara, iniciada em 1637 e sufocada pelas tropas do governo no ano seguinte, envolveu quase 40 mil japoneses. Muitos deles eram católicos e se opunham à proibição do cristianismo no país. Depois que os rebeldes foram massacrados, cristãos e estrangeiros foram perseguidos sem trégua e expulsos do Japão.

A rebelião deve seu nome à cidade de Shimabara, localizada na ilha de Kyushu, ao sul do país. A região passou a ser vista pelo governo como uma ameaça à unidade do Japão, devido a sua grande população católica. A religião era uma influência direta dos portugueses, cujo primeiro contato com os japoneses tinha sido justamente em Kyushu, onde aportaram em 1543, na cidade de Tanegashima. E o porto de Nagasaki, na parte oeste da mesma ilha, foi a principal porta de entrada de embarcações vindas de Portugal entre os séculos 16 e 17.

Apelidados de nanban-jin (a tradução literal é “bárbaros do sul”), os portugueses logo tomaram conta das ruas de Nagasaki. Senhores feudais de Kyushu tornaram-se cristãos para ganhar a simpatia do povo e dos comerciantes estrangeiros. Em princípio, isso não afetava o poder central. Oda Nobunaga, que governou o Japão de 1567 a 1582, chegou até a incentivar o trabalho dos jesuítas para enfraquecer a influência dos monges budistas (com quem disputava poder político).

Mas o ideal de igualdade pregado pelo cristianismo começou a bater de frente com a hierarquia imposta pelo xogum, desde o século 12, no Japão. Em 1603, o, então, xogum Ieyasu Tokugawa havia tomado o poder no país, unificando à força as várias partes do território, controladas por diferentes senhores feudais. Preocupado com a ascensão da religião trazida pelos portugueses, Ieyasu levou seu filho e sucessor, Hidetada, a proibir o cristianismo em 1614. Naquela época, já havia cerca de 300 mil japoneses convertidos.

A proibição, entretanto, foi ignorada. Contrariado, Hidetada mandou executar quatro missionários estrangeiros em 1617, no primeiro ato contra cristãos no Japão. Pouco depois, em 1622, começaram os massacres. Naquele ano, 22 cristãos foram queimados e 30, decapitados. Dois anos depois, a população de Nagasaki já tinha caído de 50 mil para 30 mil habitantes devido às perseguições. Mas os executados tornavam-se mártires e a repressão teve efeito contrário ao pretendido pelas autoridades: a fé dos camponeses só aumentava.

Em Shimabara os conflitos se acentuaram em 1630, quando Shigeharu Matsukura tornou-se o senhor feudal que controlava a cidade. Sua fama era de repressor: ele ordenava aos soldados que ateassem fogo a cristãos vestidos de casacos de palha de arroz. Além disso, implantou um imposto que cobrava dos lavradores 80% do produzido. Esse foi o estopim da rebelião de Shimabara. “Os lavradores passavam fome, havia muita pobreza”, diz Koichi Mori, especialista em cultura japonesa da Universidade de São Paulo. “A população havia sobrevivido a calamidades naturais como seca, má safra e terremotos.”

O movimento não nasceu, portanto, como uma revolta de católicos. “A maioria dos rebeldes não eram cristãos”, afirma Harold Bolitho, professor de História Japonesa na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Mas, apesar de não conhecerem dogmas do cristianismo com profundidade, os camponeses eram atraídos pela idéia de igualdade. “Era uma religião que falava em salvação e o povo, que vivia na miséria, queria acreditar em algo”, diz Sachio Negawa, historiador de cultura japonesa da Universidade de Brasília. Esse algo passou a ter um nome em 24 de outubro de 1637. Naquele dia, camponeses fizeram uma reunião secreta em que elegeram um líder: Shiro Tokisada Masuda. Filho de um vassalo de Yukinaga Konishi, antigo senhor feudal cristão de Shimabara, ele tinha só 16 anos quando a rebelião estourou.

Já naquela época, lendas a respeito do líder proliferavam. A mais difundida era a de que Shiro Amakusa (nome pelo qual ficou conhecido devido à vila onde nascera) era o filho de Deus enviado para salvar o povo da miséria. Essas histórias são quase tudo o que chegou aos dias de hoje a respeito de Amakusa. “Nada se sabe de concreto sobre a vida dele”, diz Harold Bolitho.

Da escolha do líder até o fim de 1637, vários levantes ocorreram. Camponeses atearam fogo a casas, destruíram templos budistas e agrediram oficiais do governo. Em 5 de dezembro, Shiro Amakusa e os rebeldes invadiram o castelo abandonado de Hara, a 32 quilômetros de Shimabara. O local foi escolhido porque ficava em um cume e era cercado por fossos de água, o que facilitava o isolamento e a defesa.

Se, no início, o movimento foi marcado pela indignação dos camponeses oprimidos e não por reivindicações religiosas, depois da tomada do castelo de Hara, o cristianismo ganhou muito espaço entre eles. Vários livros de história descrevem que, em momentos de desespero, os camponeses se apoiavam na fé, levantando cruzes e bandeiras brancas. Para adquirir coragem, rezavam e gritavam os nomes de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Em uma escavação arqueológica na fortaleza, iniciada em 1992 com o patrocínio da prefeitura de Nagasaki, foram encontradas imagens de bronze de Jesus, Maria e São Francisco Xavier, além de cruzes e rosários.

Dos 37 mil rebeldes que se reuniram em Shimabara, quase metade eram mulheres e crianças. Entre os cerca de 20 mil homens, uma pequena parte eram ronins (como eram chamados os samurais desempregados, que não estavam servindo a nenhum senhor). Mas não se pode dizer que houvesse um grupo coeso de samurais cristãos lutando em defesa de Shimabara do modo como estamos acostumados a ver em filmes. Apesar de ter surgido no século 12, junto com o xogunato, essa classe de guerreiros só se consolidou no século 18 – respeitando um código de honra e atuando como funcionários públicos.

A ira do Xogum

Ao saber da ocupação do castelo abandonado, Katataka Terazawa, senhor feudal de Amakusa, enviou 3 mil guerreiros para a região. Apenas 200 voltaram vivos. Os boatos logo chegaram aos ouvidos do xogum Iemitsu Tokugawa, que tinha alcançado o poder em 1623, ao substituir o pai, Hidetada. Ele ficou impressionado com a resistência dos rebeldes e enviou uma tropa de 26 mil soldados comandados por Shigemasa Itakura. No primeiro ataque, 600 homens morreram e, na segunda tentativa, 5 mil homens de Itakura foram mortos, enquanto menos de 100 rebeldes ficaram feridos.

Em janeiro de 1638, as tropas do xogum tentaram invadir o castelo e foram duramente castigadas, a ponto de o próprio comandante Itakura ter sido morto em combate. Ele foi então substituído pelo conselheiro do xogum, Matsudaira Nobutsuma, mandado para Shimabara com 120 mil homens. Há quem diga que esse poderoso exército contou até com a participação de Musashi Miyamoto, o samurai mais famoso da história do Japão, invencível por mais de 60 duelos consecutivos. Mas, historicamente, não há provas da participação dele na batalha – o que se sabe apenas é que Musashi se instalou em Kumamoto, localidade próxima a Shimabara, em 1640, cinco anos antes de sua morte.

A chegada do conselheiro Nobutsuma a Hara foi um momento importante para a mudança de estratégia. Em vez de simplesmente atacar, ele fez um cerco em volta do castelo, para evitar que os rebeldes saíssem do forte em busca de comida. Achava que a fome faria com que se rendessem. Passados alguns dias, ele jogou uma carta dentro do castelo prometendo perdoar aqueles que se entregassem. Não adiantou. Definhando, os rebeldes entoavam orações e canções que pediam a bênção de Deus para cortar a cabeça de seus inimigos. A fim de acabar com a resistência, as tropas do xogum tiveram que requisitar o auxílio de estrangeiros. Navios de guerra vindos da Holanda foram então enviados para bombardear o castelo de Hara. Cerca de 400 balas de canhão foram encontradas nas escavações da fortaleza. Mas, em vez de forçar a rendição dos camponeses, a artilharia pesada parece ter dado mais matéria-prima para sua fé: arqueólogos acharam 16 cruzes de metal no castelo, provavelmente feitas a partir da fundição dos projéteis.

Em 10 de março de 1638, senhores feudais de lugares como Amakusa e Shimabara enviaram reforços para auxiliar as tropas oficiais. Nesse ponto do combate, estima-se que já houvesse 200 mil soldados contra 30 mil rebeldes. Um mês depois, um grupo de camponeses tentou um ataque noturno às tropas do governo. O resultado foi um desastre: 380 rebeldes morreram e alguns sobreviventes capturados revelaram que não havia mais comida ou pólvora dentro do castelo. A informação serviu para que fosse planejado o ataque final, que ocorreu em 11 de abril de 1638. Os cristãos lutaram desesperadamente. Além de espadas e lanças, utilizaram pedras, pedaços de madeira, utensílios de cozinha ou qualquer coisa que pudesse ser empunhada como arma ou atirada do canhão que eles possuíam.

O castelo foi invadido de madrugada. Cerca de 5 mil rebeldes se sacrificaram para não terem que se render. O restante foi dizimado sem piedade. Shiro Amakusa e outros líderes foram decapitados e suas cabeças foram expostas na ponte de Dejima, em Nagasaki. Do lado oficial, apenas 1 100 soldados morreram. Apesar da vitória, Matsukura, o senhor feudal de Shimabara, se sentiu desonrado e cometeu harakiri (suicídio ritual). Terasawa, senhor de Amakusa, foi punido pelo xogum com a perda de parte de suas terras. Pouco depois, ele enlouqueceu e também se matou.

A feroz resistência dos fiéis nos cinco meses de batalha deixou o xogum Iemitsu extremamente preocupado. Tanto que, depois de Shimabara, os cristãos e estrangeiros passaram a ser os maiores inimigos do governo Tokugawa. Em Nagasaki, padres eram mortos em público e queimados vivos. Aproximadamente 80% dos cristãos da cidade foram executados e os outros foram presos ou escravizados. Prêmios em dinheiro eram oferecidos aos que denunciassem os religiosos clandestinos.

Quanto aos estrangeiros, a política foi restringir cada vez mais sua presença no Japão. Em 1636, cidadãos de diversas nacionalidades já haviam sido banidos, inclusive os portugueses. O último decreto nesse sentido foi baixado em 1639: apenas holandeses e chineses, que haviam reforçado o ataque a Shimabara, puderam permanecer no país, embora tenham ficado restritos a algumas partes de Nagasaki. As únicas pessoas que podiam circular por esses guetos eram as gueixas – ao contrário de muitos comerciantes japoneses, que abriram falência com o declínio do intercâmbio com o exterior, elas prosperaram.

Outra proibição chegou em 1641, impedindo a importação de publicações em língua portuguesa – exceto obras sobre medicina, navegação e astronomia. Decisões como essa fizeram parte da política de fechamento e isolamento que perdurou no Japão até o início da chamada Restauração Meiji, em 1868 (que aboliu o sistema do xogunato, tirou o poder das mãos dos Tokugawa e o devolveu à família real). Antes de ser expulsos, entretanto, os portugueses já haviam deixado um grande legado tecnológico e cultural. Graças a eles, os japoneses tinham conhecido a espingarda, a impressão de livros (como o primeiro dicionário da língua japonesa, editado em 1603) e objetos como relógios, óculos e calças. Até hoje é comum ouvir no Japão palavras que nasceram do português. É o caso de botan (botão), tempura (que vem de “tempero”) e birudo (vidro). Mas não se anime em ir colocando arigatô na lista. A história de que a forma de agradecer dos japoneses deriva de “obrigado” é pura lenda.

Chute na Santa

O governo obrigava japoneses a provar que não eram cristãos. O xogum Iemitsu Tokugawa deu uma ordem bem clara quando enviou soldados para o castelo de Hara: exterminar todos os cristãos. No entanto, o exército oficial não deu conta dos outros fiéis que estavam espalhados pela ilha de Kyushu. Assim, o período pós-Shimabara foi marcado por uma intensa repressão ao cristianismo, oficialmente banido do Japão desde 1614.

Uma das primeiras medidas foi obrigar todas as famílias que moravam em Nagasaki a se filiar a templos budistas. Anualmente, elas tinham de apresentar uma declaração afirmando que nenhum de seus membros tinha ligações com a religião proibida. Mas o grande tira-teima usado pelos inquisidores era a prática do fumi-e, que significa “pisar nas pinturas”. Os moradores de Nagasaki eram convidados a pisotear cruzes e imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Há registros de 1658 que falam de secretários da inquisição percorrendo vilas com uma lista que continha os nomes dos habitantes da cidade. Eles eram chamados um a um para passar pelo teste. A cerimônia chegava a durar quatro dias. Até crianças de colo eram levadas pelas suas mães para tocarem as imagens religiosas com os pés.

Ao chegar em casa, os que eram cristãos rezavam pedindo perdão. Alguns chegavam ao ponto de lavar os pés, para depois beber a água. A prática do fumi-e só foi proibida em 1857, alguns anos antes da Restauração Meiji, quando o cristianismo voltou a ser aceito no Japão. Em 1873 foram revelados cerca de 20 mil seguidores do cristianismo, que havia sobrevivido clandestinamente ao longo dos séculos. Eles foram chamados de kakure kirishitan, que significa “cristãos escondidos”. “O sincretismo permitiu que a religião sobrevivesse”, diz Sachio Negawa, historiador de cultura japonesa da Universidade de Brasília. Para não chamar a atenção das autoridades, a Virgem Maria ganhou o nome de Kannon, uma deusa budista – há imagens de Maria Kannon conservadas em museus da ilha de Kyushu.

Até hoje, em datas festivas, as perseguições aos cristãos são lembradas. Na semana do Festival Okunchi, celebrado entre os dias 7 e 9 de outubro em Nagasaki, os moradores da cidade abrem a porta de suas casas e exibem seus pertences no jardim. Trata-se de um antigo costume do século 17, quando eles eram obrigados a mostrar tudo o que possuíam para provar que não eram católicos. Fonte:Revista Grandes Guerras.

Veja também: Cristãos massacrados em Nagasaki

Curiosidades:

Amakusa, líder da revolta, virou até personagem de videogame. Não há outro lugar do mundo além do Japão em que um personagem histórico como Shiro Amakusa, o líder da revolta Shimabara, pudesse virar personagem de videogame e de mangá.

Um dos fatores que contribuem para isso é o grande mistério que cerca sua vida. “A única certeza que se tem é que ele morreu aos 16 anos”, diz Harold Bolitho, professor de História Japonesa na Universidade Harvard. A ausência de evidências históricas rapidamente deu lugar a lendas incríveis. Ter lutado pela igualdade em plena sociedade feudal e ter tido a cabeça exposta depois do massacre de Shimabara ajudaram a construir sua reputação de mártir e divindade.

A mais popular das especulações era a de que Amakusa tenha sido predestinado como o “quarto filho dos céus”, segundo profecia de Francisco Xavier, o primeiro católico a pisar no Japão (e que virou santo em 1622, canonizado pelo papa Gregório XV). Falava-se também que o líder rebelde, assim como Jesus Cristo, tinha o dom de caminhar sobre as águas. Os séculos de culto fizeram com que ele se tornasse uma estrela na era das diversões eletrônicas.

Herói do game Samurai Shodown, lançado em 1991 pela SNK Playmore, Amakusa ganhou uma cabeleira vermelha e roupas coloridas. E sua trajetória é claramente baseada em fatos reais. No jogo, o personagem é executado pelas tropas do xogum depois de liderar uma revolta cristã. Já o que vem depois é pura viagem: a alma de Amakusa faz um pacto com o demônio Ambrosia (o deus da escuridão) e volta ao mundo 150 anos depois, dividindo-se em duas partes: uma boa e outra má. O objetivo de Samurai Shodown é fazer com que o personagem se livre da parte má.

Já no mangá Samurai X, criado por Nobuhiro Watsuki e publicado no Brasil entre 2001 e 2003, o herói aparece de um modo um pouquinho diferente: o samurai cristão Shogo Amakusa protege uma comunidade cristã que vive na marginalidade – é uma clara referência aos católicos clandestinos japoneses, os chamados kakure kirishitan.

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About Author

André Miranda

Nascido no Rio de Janeiro, mas, devido a sua ascendência nordestina, criado na Bahia, começou Karatê em 1988, na extinta Lince Karatê Clube, com a Sensei Amanda Barcelar Pires (primeira faixa-preta mulher da Bahia, aluna de Denilson Caribé - ASKABA). Graduou-se faixa preta pela FNAM, com o Sensei Masco Monteiro. De volta ao Rio de Janeiro, continuou seu treinamento com o Sensei Humberto Amorim (6º Dan), no Quartel São João da Urca, com quem continua treinando. Praticante do estilo Shotokan Ryu, o qual é 3º Dan, em 2009 começou a praticar Jiu-Jitsu (sob a orientação do Sensei Gustavo Souza - 6º Dan) e Aikido (sob a orientação do Sensei Luciano Santana - 4º Dan). Amante da cultura Japonesa fundou o Instituto Ishindo, onde busca difundir a cultura e tradição marcial japonesa.

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