Pela Cruz, A Espada

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Samurais Cristãos Mortos

O pioneiro comércio dos portugueses com o Japão teve um trágico fim: dezenas de degolados por serem cristãos e rejeitarem clemência.

Entre os grandes feitos da navegação portuguesa está o pioneiro comércio com o Extremo Oriente. Os lusos entraram para a história como os primeiros europeus a pisarem no Japão em 1543. Mas a lucrativa relação que estabeleceram terminaria em sangrenta tragédia. O relato do caso coube ao procurador geral da província do Japão, padre Antonio Francisco Cardim (1596-1659), da Companhia de Jesus, que o registrou sob o título: Relação da gloriosa morte de quatro embaixadores portugueses, da Cidade de Macao, com sincoenta & sete christãos de sua companhia, degolados todos pella fee de Christo em Nagassaqui […] a tres de agosto de 1640.

As trocas comerciais com o Japão ocorriam de maneira singular: os portugueses zarpavam de Macau, na China, para um porto japonês preestabelecido com um navio repleto de bens de consumo, como seda, ouro, almíscar e linha de costura. Os japoneses pagavam em prata, metal pelo qual os chineses tinham obsessão. Comprava-se mais barato em um local, vendia-se mais caro em outro e, sucessivamente, os portugueses auferiam seus ganhos em uma rede que incluía outros entrepostos, como Malacca (Malásia), Goa (na Índia, o mais importante de todos) e a ilha de Moçambique. Até que veio do Japão uma ordem que acabaria com as negociações via Macau.

Em 1639, o xogum Tokugawa Iemitsu (1604-1651) – uma espécie de comandante militar e governante nomeado pelo imperador – decretou a morte de qualquer cristão e ocidental que pisasse em território japonês (com exceção dos holandeses). Havia fortes indícios de que a Rebelião de Shimabara – que dois anos antes causara a morte de mais de 30 mil rebeldes – fora insuflada por missionários católicos. No mesmo ano da proibição, dois navios mercantes de Macau foram impedidos de permanecer no porto de Nagasaki e tiveram que retornar com suas mercadorias intactas.

Em função disso, quatro embaixadores foram encarregados de tentar negociar o restabelecimento do comércio. Sua missão era convencer os japoneses de que Macau nada tinha a ver com o levante de Shimabara. Uma vez no Japão, eles disseram às autoridades que não haveria mais pregação cristã. Mas na carta oficial escrita ainda em Macau, não havia nada expressamente afirmado sobre o fim da evangelização. Para o padre Cardim, omitir o fim da pregação cristã nessa carta foi algo digno de louvor, “porque prometer tal seria em menoscabo [rebaixamento]notável de nossa Santa Fé”.

As autoridades japonesas, porém, notaram a contradição e concluíram que tudo o que foi dito não passava de fingimento. Ato contínuo, ordenaram a degola dos embaixadores e de toda a tripulação. Segundo o relato de Cardim, a reação à notícia não foi de medo, mas sim de alegria, pois morreriam pela fé em Cristo. O que era para ser uma missão diplomática transformou-se em sacrifício religioso. Um longo martírio se inicia, com os portugueses entrando em uma espécie de transe, chegando alguns a se açoitarem. Os iurubaças (intérpretes japoneses), ofereceram por três vezes aos condenados o perdão do “Rei” japonês. Todos, sem exceção, recusaram.

A certa altura, os tonos (espécie de magistrado japonês) travam um diálogo com três membros letrados não portugueses da expedição: um “canarim” (natural de Goa), um malabar (casta da Índia) e um chinês de Macau. Os magistrados perguntam se eles querem voltar para Macau a fim de relatarem o ocorrido ou morrerem com os demais, e eles respondem que tal decisão não cabe a eles. Diante de tal resposta “se mostraram os tonos admirados, como quem os tinha por homens que não temiam a morte”. A tripulação era composta por gente de toda a Ásia. Ao mencionar o “glorioso espetáculo” da execução, Cardim ressalta que havia homens de 16 “fortes nações”: alguns cativos, outros livres, gente de todas as idades, inclusive uma criança de 8 anos. Todos supostamente cristãos.

Passada uma noite, a sentença foi executada. Foram 57 decapitações simultâneas, enquanto os embaixadores foram mortos um a um pelo mesmo samurai. As cabeças de todos foram postas em estacas para servir de exemplo. Ninguém pôde saquear os corpos, pois morreram com bravura, um gesto respeitado pelos japoneses. Cardim afirma que os embaixadores “se oferecerão à morte pelo bem de sua pátria” depois de uma longa preparação espiritual para a viagem.

Um grupo de 13 pessoas da embaixada foi poupado a fim de relatar todo o ocorrido, e o testemunho desses sobreviventes embasou a obra impressa. O folheto de Cardim está arquivado na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Fonte: Revista de História – Biblioteca Nacional, n.º 96.

Veja também: Mártires de Nagasaki

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Sobre o Autor

André Miranda

Nascido no Rio de Janeiro, mas, devido a sua ascendência nordestina, criado na Bahia, começou Karatê em 1988, na extinta Lince Karatê Clube, com a Sensei Amanda Barcelar Pires (primeira faixa-preta mulher da Bahia, aluna de Denilson Caribé - ASKABA). Graduou-se faixa preta pela FNAM, com o Sensei Masco Monteiro. De volta ao Rio de Janeiro, continuou seu treinamento com o Sensei Humberto Amorim (6º Dan), no Quartel São João da Urca, com quem continua treinando. Praticante do estilo Shotokan Ryu, o qual é 3º Dan, em 2009 começou a praticar Jiu-Jitsu (sob a orientação do Sensei Gustavo Souza - 6º Dan) e Aikido (sob a orientação do Sensei Luciano Santana - 4º Dan). Amante da cultura Japonesa fundou o Instituto Ishindo, onde busca difundir a cultura e tradição marcial japonesa.

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